Chá com poesia

Quando pensamos em uma boa educação, precisamos pensar em atuar com intencionalidade. Ou seja, podemos escolher nossas ações tendo em vista  o que queremos estimular  em nossos  filhos e oferecer  situações concretas para que eles exercitem bons hábitos.  Esses serão fundamentais na aquisição das virtudes e no fortalecimento da personalidade.

 

Pais que se dão ao trabalho de estabelecer os padrões de comportamento e encaminhar a criança de modo a vivenciar o que é bom, terão dias mais tranquilos, desfrutarão melhor da convivência familiar e deixarão para seus filhos um tesouro. Pois quem tem um bom hábito é livre para aplicá-lo ou não, quem não estabeleceu um bom hábito precisa de um grande esforço e domínio de si para conquistá-lo. Ou é consumido por vícios que dominam sua liberdade de decisão.

A educação domiciliar permite que os pais promovam atividades educativas visando a formação global da personalidade. Estamos preocupados com uma sólida formação intelectual, mas não perdemos de vista que a formação socio-afetiva, moral, transcendente, volitiva, física, sensorial e do caráter fazem parte da pessoa e precisam de encaminhamento. Todos esses âmbitos, que se intercomunicam na vida real são educados em situações pontuais e corriqueiras.  Portanto não educamos só quando queremos. Educamos com o que somos, com nossa conduta, com o ambiente de nossas casas. Precisamos algumas vezes aproveitar oportunidades educativas e outras vez criar eventos como um chá com poesia.


O “Chás com Poesia”, inspirado no trabalho de Julie Bogart, é uma prática que tem conquistado mães que educam em casa em todo o mundo. Trata-se simplesmente de leitura ou de declamação de poesia previamente decoradas à mesa durante um chá com guloseimas. A vivência dessa atividade é ocasião para que se eduque em múltiplos aspectos.

Primeiro, podemos envolver a criança no preparo dos biscoitos e do chá que serão servidos. Cozinhar em casa é uma atividade sensorial muito rica e uma oportunidade de aprender matemática na prática. Ao fazer biscoitos a criança desenvolve a coordenação, trabalha medidas, contagem e modelagem. Para isso, é preciso tomar algumas precauções de segurança e preparar previamente o espaço da cozinha além do ânimo, com uma dose extra de paciência, pois crianças podem fazer uma certa bagunça. Se mostrarmos passo a passo e em silêncio o que esperamos que façam, elas se esforçarão para repetir o que viram dentro de suas possibilidades. Essa é a ocasião para animá-las a exercitar a concentração e o capricho. Terminada a feitura das guloseimas, podemos ensinar que ordenem os utensílios e que cuidem dos detalhes para que o ambiente fique como foi encontrado no início. A repetição desse tipo de exigência carinhosa é benéfica para todos que ganharão com a capacidade de gerir e respeitar o espaço.

A preparação da mesa para o Chá com Poesia também é uma oportunidade educativa. A criança pode, por exemplo, treinar como carregar uma bandeja. Essa atividade simples exige coordenação e atenção e é um treino de vida prática montessoriano desafiador para crianças pequenas. Ensinamos a alegria no cuidado com os detalhes, por exemplo, ao sugerir que coloquem um vaso de flores e velas na mesa. Assim, cria-se um ambiente aconchegante para a família, enriquecido com muito amor. Objetos que trazem harmonia e afetam o sensorial são estimulantes, pois os pequenos têm a afetividade muito influenciada pelos sentidos. O aroma, o sabor, a organização do espaço contribuem para a harmonia interior. Um espaço materialmente ordenado contribui com a formação de crianças tranquilas.

Mostramos com nossas ações e com atenção aos detalhes que as coisas que fazemos são importantes, mas que os modos como as fazemos também o são. O capricho propicia que se aprenda a respeitar os utensílios que usamos e consequentemente as pessoas que convivem conosco e que se beneficiam de um ambiente cuidado com zelo. A criança precisa perceber que outras pessoas desfrutarão do seu trabalho bem executado e que usarão também aqueles utensílios e que, por isso, cuidar das coisas é uma forma de ser atenciosa com os outros. Essa é uma atitude pequena e concreta que educa para a cidadania. Depois, quando chega a hora de sentar à mesa, existe um treino de autodomínio, boas maneiras, asseio que é pertinente a educação doméstica e é importante para o desenvolvimento como um todo.

Por fim, com chás e biscoitos à mesa, sentamos para ler poesias. Essa atividade é intelectual e culturalmente muito rica. Com os menores podemos exercitar a memorização, podemos declamar alguns poemas que já foram memorizados. Nesse ínterim a educação global continua: faz-se silêncio para respeitar quem fala, partilha-se a vez de falar. Nessa atividade educa-se a imaginação com beleza e se dá a transmissão de repertório literário. Além disso, é um exercício excelente de pré-alfabetização.

Enfim, a educação domiciliar é composta de atividades simples nas quais o ambiente de proximidade e aconchego predispõe para a confidência e a confiança e favorece o aprendizado. Nesse cenário está se desenrolando a infância de nossos filhos e essas doces lembranças ficarão permeadas de aromas, sabores, e lindas poesias com seus ritmos e sons.

A pedagogia de Charlotte Mason estimula um treino continuado nos bons hábitos. Ela aponta o exercício da concentração atenta e a busca de uma execução perfeita das atividades como o caminho para potencializar o aprendizado e as qualidades humanas.

Para vivenciar essa filosofia precisamos estabelecer um plano visando as circunstâncias concretas nas quais o treino do hábito será aplicado e depois precisamos estar atentos aos detalhes do que a criança faz.

O Papel da Cortesia na Educação

É cada vez mais comum encontrarmos exclamações e protestos acerca do mau comportamento e da falta de educação doméstica das crianças. A visão que temos da infância mudou e um dos frutos dessa nova realidade na qual se educa pequenos tiranos é termos como esperado um padrão de comportamento muito pobre. Não podemos ter ilusões de que com o tempo uma criança que não aprendeu boas maneiras magicamente se tornará um adulto pleno e com o total domínio de habilidades sociais que não recebeu. Educar exige que não tenhamos medo de treinar a criança dentro de alguns padrões de comportamento.

É bom lembrar que a cortesia não é apenas um aburguesamento das maneiras. Mas é um padrão exterior de comportamento que ajuda a criança a compreender que os sentimentos do momento não são os melhores guias para as atitudes. Ao longo da vida inúmeras vezes temos que submeter nossas ações e reações a princípios que nem sempre são coerentes com nossas emoções num determinado momento. Por isso a cortesia é uma escola de domínio de si que será importante para toda a vida, que dá uma via segura para que nossos filhos conquistem o respeito daqueles com que convivem, que dá um padrão de desenvoltura social para as crianças tímidas.

Quando educamos nossos filhos para a cortesia auxiliamos que eles entendam que cada pessoa que encontramos é a imagem e semelhança de Deus e que portanto deve ser tratada segundo essa dignidade conforme critérios muito explícitos de boas maneiras. Ensinar a agir conforme um padrão cortês de comportamento ajuda os filhos a perceber a dignidade da outra pessoa. Essa percepção é muito importante para o amadurecimento, para o preparo da criança para a convivência social, para a melhora do relacionamento familiar.

 

Podemos pensar em práticas educacionais concretas que ajudem nossos filhos a crescer na virtude da cortesia. A importância dessa medida não se limita ao convívio social, pois essa virtude é um prelúdio que ajuda a criar condições interiores para o desenvolvimento da caridade. Ao longo da vida a compreensão que temos da caridade vai se alargando e as experiências dela também. Na simplicidade da criança ela pode compreendê-la e vivenciá-la, sem que com isso limitemos esse grande mistério do Amor ao simplismo de uma filantropia, de um bom mocismo ou de uma piedade exterior vazia de amor.

Uma das grandes belezas da educação para o transcendente é o mistério. Pois por sua natureza e por nossa natureza somos voltados para ir em busca de desvendá-lo. A alegria é sempre renovada no fato de que os mistérios de Deus nunca se esgotam, mas sempre permitem que vislumbremos aquilo que conseguimos dentro de nossas características e limitações. Filhos pequenos e grandes, mães e anciãos sempre poderão se encantar com a beleza dos mistérios, sempre terão algo para desvendar e isso se dá sem que o mistério deixe de ser mistério. Nunca é cedo para ensinar nossos filhos dentro de sua capacidade de compreensão sobre os grande mistérios.

É claro que educar para os grandes mistérios de nossa fé exige que tenhamos uma fé, ou seja, um relacionamento pessoal com Deus, e não apenas que tenhamos sido convencidos de uma estrutura intelectual sobre o transcendente, algo mais parecido com uma ideologia do que com uma religião. Explicar formalmente todos os desdobramentos teológicos para uma criança pode se mostrar completamente inútil se concomitantemente não vivenciarmos e não permitirmos que a criança vivencie a realidade concreta de onde sai o edifício intelectual acerca das verdades que estamos transmitindo.

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A meta é aprender a colaborar e partilhar tratando os irmãos com gentileza e respeito.

A importância da Alegria na família

Filhos aprendem nossa verdadeira escala de valores e não aqueles valores pelos quais gostaríamos de viver. Ou seja, aprendem qual o verdadeiro valor que damos para as coisas, pessoas e situações conforme vamos vivendo segundo esses valores. Nos observam e estão aprendendo tudo o que transmitimos intencional ou não intencionalmente, seja de modo verbal ou não-verbal. Observam qual é o modo de lidar com as dificuldades, que podem ser simples descompassos na rotina ou graves problemas, observam se nos desesperamos, se nos iramos, como nos portamos.

Muitas vezes nos deixamos levar pela melancolia e acreditamos que nossas circunstâncias justificam a tristeza. Mesmo que tenhamos motivos para estarmos chateados não podemos perder de vista que o sucesso profissional, familiar, social, material, não coincide com a felicidade. Encontramos pessoas bem sucedidas nas diversas áreas que não são felizes. A harmonia familiar deve transcender as pequenas contrariedades, porque é natural que as biografias sejam permeadas por obstáculos, frustrações, dificuldades. Esses fatores são importantes para o amadurecimento da personalidade. Portanto, se pensarmos bem, muitas vezes ficamos esperando para prover uma atmosfera de amor, confiança e alegria quando as coisas em nossa vida estiverem mais dentro de nossas expectativas e com isso podemos estar esperando circunstâncias ideais para sermos felizes enquanto na prática terminamos apenas cultivando lares sombrios.
Afinal, problemas de saúde, preocupações, dificuldades financeiras sempre existirão. Não podemos esperar para sermos alegres quando tudo estiver bem. Por isso é muito importante que nos esforcemos para sermos alegres independentemente das circunstâncias, em meio às lutas usuais de cada dia. Para alcançar essa meta, o primeiro passo que devemos dar, e que devemos ensinar nossos filhos a aplicar, é deixar os sentimentalismos de lado e nos voltar para o bem-estar dos outros e manter em mente que aqueles que vivem conosco vão se beneficiar muito de nos ver alegres.
Para praticar com constância a alegria podemos tentar:
– Permear a vida da família de cordialidades recíprocas;
– Sorrir para nossos filhos mesmo quando não estamos com vontade. Não se trata de fingimento, ou de ser um bobo alegre, trata-se de um esforço para adquirir uma virtude ainda que as vezes isso possa ser uma pequena mortificação;
– Aceitar a realidade como ela se apresenta em nossas vidas, sem reclamações;
– Precisamos deixar que nossos filhos sofram. Precisamos aprender a suportar a dor deles. Mas estimulando-os a não perder a esperança e enfrentar com otimismo as dificuldades.

Estou educando meus filhos para ganhar o mundo inteiro e perder a alma?

Quando olhamos o panorama das ideias sobre educação percebemos que tudo o que se propõe parte de algum entendimento sobre o que é o ser humano e qual o seu papel no mundo. Os pais, por sua vez, quando vão em busca de instrução para seus filhos muitas vezes estão preocupados com uma formação utilitarista que vise a formação profissional e a inserção na sociedade, e, por isso, muitas vezes não compreendem que a visão de mundo e de ser humano que muitas instituições têm pode ser incompatível com suas filosofias pessoais de vida. Não podemos cair nesse erro. De que adiantaria para nossos filhos ganhar o mundo inteiro e perder a alma?
Independentemente da linha pedagógica que se tenha comprado nas prateleiras do supermercado das tendências de formar ou reformular o ser humano, acredito que todos os pais pretendem educar um homem feliz. Mas, acredito que todas as pessoas razoáveis sabem que não existe vida cor de rosa. Nossos filhos precisarão passar por dificuldades, por problemas e por sofrimentos. Essas situações adversas são importantes para fortalecer a personalidade, então tomara que passem por contrariedade, pois o resultado de todos os esforços paternos de “poupar os filhos de passarem por tudo o que eu passei” invariavelmente é filhos adultos frágeis ou egoístas. Tudo o que passamos de dificuldade na vida é ocasião para que desenvolvamos o melhor de nos mesmos. Quando penso num plano educativo para minha família preciso pensar em que tipo de valores humanos estou transmitindo com minhas ações? Quais características estou permitindo que meus filhos desenvolvam com isso? Quais traços de caráter eu pretendo estimular que desenvolvam? Seria a sinceridade? Seria a bondade? Seria a generosidade? Que situações estou propondo para que meu filho possa exercitar essas qualidades e assim se tornar um ser humano melhor.
É fundamental que nossos filhos desenvolvam a coragem para enfrentar a vida e a sinceridade para buscar a verdade. Uma vez que quem busca a verdade busca Deus, o objetivo principal da educação deve ser instalar a criança na realidade com um senso de honestidade intelectual estimulando o amor pelo bem, pelo belo, pela verdade. Mas, como é muito fácil para o ser humano ser vítima das mentiras que conta para si mesmo criando raciocínios complicadíssimos para fugir da própria intuição, devemos ensinar nossos filhos a lutarem consigo próprios para que conquistem virtudes. Seja deixando que se confrontem com os próprios problemas, seja apontando amorosamente a verdade sobre si mesmo.

Ensine seus filhos a obediência para formar adultos verdadeiramente livres

Tenho visto muito ser dito acerca da supostos efeitos negativos de se ensinar aos filhos a obediência. Percebo que o modo como a questão é colocada faz parecer que ao ensinar um filho a obedecer se está criando uma pessoa reprimida, sem iniciativa e incapazes de seguir a própria consciência.

Por ser mãe e saber que a expectativa da obediência sempre visa o beneficio da criança, e muitas vezes um benefício que ela é incapaz de entender, e também porque a virtude da obediência é fundamental para todos, penso que ensinar alguém a resistir a autoridade paterna é o modo menos indicado para se atender a meta de criar adultos críticos e capazes de dirigir suas vidas pautados nas próprias ideias.

De modo geral desobedecer – principalmente na infância – é fácil. Para isso basta atender os próprio apetites, desejos e impulsos, ou seja, qualquer um é naturalmente inclinado para isso. Já obedecer é consentir voluntariamente com uma vontade que muitas vezes pode até ser oposta aos desejos e apetites. Exatamente por isso obedecer custa, exige esforço, demanda reflexão.
Ensinar um filho a virtude da obediência implica em proporcionar o desenvolvimento de uma liberdade muito maior do que simplesmente abandoá-lo a mercê de si mesmo. É necessário dominar a si mesmo para ser capaz de obedecer.
No entanto, o que vemos hoje em dia é que cada vez mais as pessoas estão enfraquecidas no que concerne à obediência e à força de vontade. É comum não conseguirem obedecer nem a si próprias!
São tão escravas das próprias paixões que não tem a liberdade para conseguir fazer uma dieta, ou para acordar no horário, ou para batalhar por uma conquista profissional, ou para resistir a um impulso de consumo.
É muito importante ensinar aos filhos a ponderar sobre as consequências das escolhas e das atitudes, é importante ensinar a refletir antes de agir, é importante que tenham  discernimento e que pautem livremente as atitudes segundo uma hierarquia de bons valores. É importante que entendam os princípios que receberam e que busquem a verdade, a nobreza, a justiça. E para que que consigam atingir essa maturidade precisamos exercer a autoridade paterna. Esse é um dever dos mais graves, pois a criança, que não tem o discernimento maduro, conta conosco para conduzi-la enquanto ela não estiver pronta para obedecer ou desobedecer com verdadeira liberdade interior. Contudo, deixar o filho sob o jugo da tirania de si mesmo é uma negligência covarde.