A importância da Alegria na família

Filhos aprendem nossa verdadeira escala de valores e não aqueles valores pelos quais gostaríamos de viver. Ou seja, aprendem qual o verdadeiro valor que damos para as coisas, pessoas e situações conforme vamos vivendo segundo esses valores. Nos observam e estão aprendendo tudo o que transmitimos intencional ou não intencionalmente, seja de modo verbal ou não-verbal. Observam qual é o modo de lidar com as dificuldades, que podem ser simples descompassos na rotina ou graves problemas, observam se nos desesperamos, se nos iramos, como nos portamos.

Muitas vezes nos deixamos levar pela melancolia e acreditamos que nossas circunstâncias justificam a tristeza. Mesmo que tenhamos motivos para estarmos chateados não podemos perder de vista que o sucesso profissional, familiar, social, material, não coincide com a felicidade. Encontramos pessoas bem sucedidas nas diversas áreas que não são felizes. A harmonia familiar deve transcender as pequenas contrariedades, porque é natural que as biografias sejam permeadas por obstáculos, frustrações, dificuldades. Esses fatores são importantes para o amadurecimento da personalidade. Portanto, se pensarmos bem, muitas vezes ficamos esperando para prover uma atmosfera de amor, confiança e alegria quando as coisas em nossa vida estiverem mais dentro de nossas expectativas e com isso podemos estar esperando circunstâncias ideais para sermos felizes enquanto na prática terminamos apenas cultivando lares sombrios.
Afinal, problemas de saúde, preocupações, dificuldades financeiras sempre existirão. Não podemos esperar para sermos alegres quando tudo estiver bem. Por isso é muito importante que nos esforcemos para sermos alegres independentemente das circunstâncias, em meio às lutas usuais de cada dia. Para alcançar essa meta, o primeiro passo que devemos dar, e que devemos ensinar nossos filhos a aplicar, é deixar os sentimentalismos de lado e nos voltar para o bem-estar dos outros e manter em mente que aqueles que vivem conosco vão se beneficiar muito de nos ver alegres.
Para praticar com constância a alegria podemos tentar:
– Permear a vida da família de cordialidades recíprocas;
– Sorrir para nossos filhos mesmo quando não estamos com vontade. Não se trata de fingimento, ou de ser um bobo alegre, trata-se de um esforço para adquirir uma virtude ainda que as vezes isso possa ser uma pequena mortificação;
– Aceitar a realidade como ela se apresenta em nossas vidas, sem reclamações;
– Precisamos deixar que nossos filhos sofram. Precisamos aprender a suportar a dor deles. Mas estimulando-os a não perder a esperança e enfrentar com otimismo as dificuldades.

Como manter a sanidade tendo crianças em casa o tempo todo?

Ao se deparar com uma família numerosa é natural que as pessoas se assustem e imaginem que é um trabalho hercúleo coordenar e ainda ensinar esse pequeno time. O segredo do funcionamento do homeschooling é o segredo do bom funcionamento de qualquer família:
– regras consistentes,
– rotina e programação,
– crianças obedientes e cooperativas, que sabem o que é esperado delas, acostumadas a ter caridade com os irmãos vivendo a virtude da cortesia.
Entendo a dificuldade imaginativa que surge para os pais ao se depararem com essa nova realidade. Essas características atualmente aparentam ser uma realidade impossível. Concordo que educar em casa é muito difícil se existe luta para colocar as crianças na cama, se não conseguimos fazer com que elas se levantem no dia seguinte, se a criança não se alimenta adequadamente, se a casa fica muito bagunçada, se a criança não obedece quando a mãe lhe manda estudar, se impedimos que a criança enfrente os desafios, que se frustre, se a criança exige coisas e não sabe ser agradecida, se há excesso de consumo, se a caixa de brinquedos fica descontrolada e ficamos tropeçando em coisas pela casa. Mas a realidade é que não é desse modo ou pelo menos não deveria ser desse modo. Em nossa cultura atual o que é esperado das crianças em termos de bom comportamento e convivência é muito ruim. Os pais se veem reféns dos comportamentos inadequados dos filhos porque estão aprendendo isso com terceiros, e as escolas se veem reféns dos problemas comportamentais que as crianças trazem de casa e de pais omissos.
Enfim, para que a Educação Familiar corra bem é preciso que as crianças respondam com confiança e obedientemente às necessidades que surgirem em qualquer ambiente em que a família esteja. Ou seja, muitas coisas não associadas ao homeschooling são pré-requisito para o bom funcionamento da ED. É natural que nas famílias que educam os filhos em casa as crianças se comportem melhor por estarem sendo assistidas de perto pela família. Mas se você ainda está se debatendo com os desafios educacionais que decorrem dessa perspectiva de que as crianças são ingovernáveis, eu recomendo a leitura do livro It Does’t Have to be This Way.
Além disso, tenha paciência. No decorrer do tempo com os filhos em casa aprendemos a nos conhecer e conhecemos nossos filhos muito de perto. Criamos vínculos profundos e podemos traçar pequenos pontos de luta concretos para melhorar os pontos frágeis deles e nossos. A rotina educando em família exige que se viva em um esforço contínuo para se ser uma pessoa melhor visando o bem das pessoas que mais amamos, e que eles aprendam a lutar também. Mas precisamos ter resiliência nas quedas, paciência com os defeitos próprios e alheios. Afinal, mais importante do que uma fazer nossa programação perfeita é viver o amor em família.

A importância de educar no deslumbramento e na realidade

O artigo “La importancia de educar en el asombro y en la realidad”escrito pela neurocientista  autora dos livros Educar en el asombro e Educar en la realidad explicita que na educação de crianças o vínculo afetivo com o educador é um elemento fundamental para o bom desenvolvimento. Disso, podemos concluir que a atuação dos pais como principais educadores favorece o desenvolvimento intelectual dos filhos. Portanto é muito conveniente que assumam o papel de professores. Talvez disso derive os inúmeros sucessos acadêmicos das crianças educadas em casa. Segue uma tradução livre do artigo:

A Importância de Educar no Assombro e na Realidade:

“Agora vamos fazer um registro. Nós vamos pintar um coelho que vive em uma fazenda. Então vamos ver algumas letras no tablet. E, em seguida, vamos ouvir uma gravação em Inglês. E, finalmente, eu vou explicar por que precisam ser generosos. ” O que acontece com uma criança de 4 anos de idade em uma classe como esta? Como as crianças aprendem? Será que eles aprendem através de chips, displays e discursos?
As crianças nascem com um assombro diante do mundo. Esse deslumbramento ou assombro é “não dar o mundo por suposto”. Tomás de Aquino disse que o assombro é “o desejo de conhecer”. O que assombra? A beleza da realidade. As crianças precisam de realidade para aprender, porque o cérebro humano é feito para aprender na realidade. As crianças, por exemplo, precisam de experiências sensoriais concretas para entender o mundo e para compreenderem-se a si mesmos. De fato, estudos recentes em neurociência confirmam que a memória semântica (de conhecimentos conceituais) e a memória biográfica (de acontecimentos vividos pelas experiências concretas) ainda não são diferenciadas na infância. Estas duas memórias, gradualmente, ao longo da adolescência diferenciam-se. Isso indica que as crianças não aprendem as coisas através de palestras, fichas ou telas, mas precisam de experiências reais e relações interpessoais diretas.
Crianças precisam tocar o coelho, e não pintá-lo em um caderno. Eles precisam ver e sentir o cheiro da fazenda, não ouvir sobre isso. Para internalizar generosidade, eles precisam ver a beleza desta virtude em ação, não ouvir discursos sobre o assunto. Para aprender uma língua, precisam ouvir falar uma pessoa de carne e osso e que os quer bem (seu cuidador primário). Por exemplo, estudos confirmam que as crianças não aprendem línguas nem com CD nem com DVD, e até mesmo os meios de comunicação podem contribuir para a redução do vocabulário em crianças pequenas. Estudos sobre Video Deficit Effect confirmam que há um déficit de aprendizagem quando uma criança aprende através da tela em vez de “ao vivo”. E assim, se dizemos para uma criança parar de gritar, mas fazemos isso gritando, pode ocorrer o efeito oposto. Sussurrando conseguiríamos obter mais resultados.
Crianças triangulam entre a realidade e a pessoa que assume o papel de mediador entre eles e a realidade. Em casa, os mediadores são os pais,enquanto na sala de aula é o professor. Qual é a primeira coisa que uma criança faz quando encontra um caracol no pátio da escola? “Olhe!” Ele vai correndo para seu professor dizendo. Como disse Rachel Carson, “para manter vivo o senso inato de admiração em uma criança, é necessária a companhia de pelo menos um adulto que possa compartilhá-lo”. Se o professor se assusta com o caracol, a criança vai fazer o mesmo e o jogará ao chão. Se o professor aprova, a criança vai começar a brincar com o molusco sem medo. Por isso disse Madre Teresa de Calcutá “não se preocupe se seus filhos não escutam, eles te observam todo o dia.” Crianças medem a realidade através dos nossos olhos, e se alinham.
Qual é o pilar que fundamenta o triângulo entre a criança e a realidade? É o vínculo de apego. Por esta razão, é importante que cada criança possa desenvolver uma ligação segura com o seu educador. Essa ligação transforma o educador em uma base de exploração segura para que a criança possa se lançar ao aprendizado, movido pelo assombro. O apego seguro é um vínculo de confiança que resulta de se ter atendido prontamente as necessidades básicas da criança. Como um professor pode atender prontamente as necessidades básicas de cada criança em uma classe de 15 ou 20 crianças? Boa pergunta, talvez pudéssemos fazer essa pergunta para a pessoa na educação infantil.
Em suma, o papel do professor é triplo. Em primeiro lugar é perceber as necessidades da criança através da sensibilidade. Em segundo lugar, calibrar a realidade para a criança. Em terceiro lugar, acompanhar a criança calmamente na sua exploração. Nenhuma destas tarefas pode ser realizada por uma tela, por isso tanto a sensibilidade para  “calibrar a realidade”, quanto o acompanhamento discreto são atos profundamente humanos que não podem ser feitos por um dispositivo ou por aplicação de um algoritmo por mais perfeito que seja.
Em conclusão, em um mundo educativo cada vez mais “digitalizado”, é preciso lembrar que o papel do professor tem muito mais transcendência do que imaginamos. Não somente porque o professor é quem da base para a realidade, mas também porque transmite aos seus alunos as atitudes que vivencia com sua vida. Porque a beleza que assombra só é transmitida por meio da beleza. É necessário que os professores percebam o impacto que eles têm e terão, não só em toda uma geração de crianças, mas também no futuro da humanidade, porque, como Kundera disse: “As crianças não são o futuro porque um dia serão mais velhas, mas porque a humanidade vai parecer cada vez mais com a criança, porque a criança é a imagem do futuro “.

Estou educando meus filhos para ganhar o mundo inteiro e perder a alma?

Quando olhamos o panorama das ideias sobre educação percebemos que tudo o que se propõe parte de algum entendimento sobre o que é o ser humano e qual o seu papel no mundo. Os pais, por sua vez, quando vão em busca de instrução para seus filhos muitas vezes estão preocupados com uma formação utilitarista que vise a formação profissional e a inserção na sociedade, e, por isso, muitas vezes não compreendem que a visão de mundo e de ser humano que muitas instituições têm pode ser incompatível com suas filosofias pessoais de vida. Não podemos cair nesse erro. De que adiantaria para nossos filhos ganhar o mundo inteiro e perder a alma?
Independentemente da linha pedagógica que se tenha comprado nas prateleiras do supermercado das tendências de formar ou reformular o ser humano, acredito que todos os pais pretendem educar um homem feliz. Mas, acredito que todas as pessoas razoáveis sabem que não existe vida cor de rosa. Nossos filhos precisarão passar por dificuldades, por problemas e por sofrimentos. Essas situações adversas são importantes para fortalecer a personalidade, então tomara que passem por contrariedade, pois o resultado de todos os esforços paternos de “poupar os filhos de passarem por tudo o que eu passei” invariavelmente é filhos adultos frágeis ou egoístas. Tudo o que passamos de dificuldade na vida é ocasião para que desenvolvamos o melhor de nos mesmos. Quando penso num plano educativo para minha família preciso pensar em que tipo de valores humanos estou transmitindo com minhas ações? Quais características estou permitindo que meus filhos desenvolvam com isso? Quais traços de caráter eu pretendo estimular que desenvolvam? Seria a sinceridade? Seria a bondade? Seria a generosidade? Que situações estou propondo para que meu filho possa exercitar essas qualidades e assim se tornar um ser humano melhor.
É fundamental que nossos filhos desenvolvam a coragem para enfrentar a vida e a sinceridade para buscar a verdade. Uma vez que quem busca a verdade busca Deus, o objetivo principal da educação deve ser instalar a criança na realidade com um senso de honestidade intelectual estimulando o amor pelo bem, pelo belo, pela verdade. Mas, como é muito fácil para o ser humano ser vítima das mentiras que conta para si mesmo criando raciocínios complicadíssimos para fugir da própria intuição, devemos ensinar nossos filhos a lutarem consigo próprios para que conquistem virtudes. Seja deixando que se confrontem com os próprios problemas, seja apontando amorosamente a verdade sobre si mesmo.

Quantidade ou Qualidade no tempo em família?

Uma das delícias da Educação domiciliar é passar tempo em quantidade com os filhos.
Escuto muito a história de que a qualidade do tempo é mais importante do que a quantidade. E isso tem lá seu fundo de verdade. Mas existe o perigo de se passar tão pouca quantidade de tempo em casa com a família que a qualidade fica comprometida também. Muitas vezes o que se faz é indulgenciar os filhos ou evitar corrigir os comportamentos inadequados, pois se sente que por passar tão pouco tempo juntos não se deve perder qualidade em conflitos. Mas, por amor aos nossos filhos, não podemos nos esquivar da correção e torcer para que eles se eduquem sozinhos. Precisamos atuar.
Os efeitos disso na educação dos filhos são agravados porque os demais cuidadores da crianças não tem autoridade para fazer o que é trabalho dos pais. O resultado é que a educação fica muito aquém da que seria se a mãe fosse mais presente.
Tempo de qualidade não quer dizer necessariamente tempo de prazer. Passar tempo de qualidade com os filhos, no meu entendimento, é estar com os filhos prestando atenção neles, interagindo com eles e buscando suprir suas necessidades reais. Para saber exatamente o que cada criança necessita, para ensinar o modo apropriado de se comportar, para auxilia-los a entender seus sentimentos, para poder aproveitar alguma atividade juntos, é necessário conhecer seu filho. E para isso é fundamental uma significativa quantidade de tempo.
Para a Criança a quantidade de tempo empreendida ao lado dos pais é sempre boa. Mesmo sem qualidade, a simples quantidade de tempo juntos é positiva. A criança é educada pelo exemplo. Se queremos que nossos filhos tenham os nossos valores não basta vê-los meia horinha no final do dia na frente da televisão. Quanto mais eles nos observarem mais aprenderão. Eles não necessitam ser o centro de nossa atenção o tempo todos. Mas é bom que eles estejam por perto. Além disso, essa proximidade física é condição para a proximidade psicológica. Precisamos gastar tempo para construir vínculos.
É evidente que cada família é única. Que as circunstâncias particulares diferem e que não dá para aplicar regras gerais. Mas as mães deveriam se perguntar: o espaço que o trabalho ocupa em minha vida é adequado para minha realidade? Dentro de minhas possibilidades de vida há equilíbrio entre meu trabalho e minha vida familiar? Há como eu estar mais próxima?
Uma vez que a coisa mais importantes que podemos e devemos dar aos nossos filhos não custam dinheiro – valores, exemplos, educação moral, senso transcendente da vida, amor, carinho, ou seja, precisamos dar o nosso tempo, precisamos dar a nós mesmos – porque não nos perguntamos se com uma estilo de vida mais modesto não conseguimos encontrar mais tempo?
Sem encontrar tempo para os filhos, nossa história de vida passa a ser: quando finalmente tivermos dinheiro suficiente para nos dar ao luxo de ter tempo para nossos filhos são eles que não terão tempo para nós. 

É coragem ter muitos filhos?

Imagine a seguinte cena: uma pessoa com os olhos arregalados, tomada por espanto e divertimento dizendo “CINCO?!”. Essa é a reação universal das pessoas quando respondo a pergunta “é seu primeiro filho?”. Depois de exclamar alguma variedade de “que coragem!”, “que loucura” ou “que irresponsabilidade” me perguntam “como você consegue?”. A realidade é que ter cinco filhos não é como se imagina. Sim, eu consigo. E acho que a história humana prova que eu não sou nenhuma super mulher por isso.
Parece-me que as pessoas se surpreendem tanto com a vida que nós levamos porque imaginam a própria rotina e a própria vida e colocam imaginativamente nela mais crianças e isso lhes parece o caos. Mas na realidade percebo que muitas vezes meus 5 filhos dão menos trabalho do que uma única criança de algumas famílias que se surpreendem por termos tantos filhos. 
Sim, nós conseguimos. Nós não temos cinco babás; eu não passo o dia todo no tanque lavando roupa, nem na cozinha; nosso dinheiro não dá em árvore; sobra tempo para eu fazer as minhas coisas pessoais; eu e meu marido conseguimos conversar e dar uma atenção um para o outro e fazer todas as refeições juntos em família. Levamos elas para fazer compras conosco, para passear, conseguimos dar atenção exclusiva para cada uma.
A pergunta que se segue é “você não trabalha, né?” De fato o trabalho profissional não é a minha prioridade. Aqui é a deixa para muitas mulheres admitirem que gostariam de ter muitos filhos, mas que para elas é impossível porque precisam trabalhar. Acredite, uma família numerosa não necessariamente inviabiliza o trabalho profissional fora de casa. Conheço algumas mães de famílias ainda maiores do que a minha que trabalham fora de casa. Acontece que EU optei por assumir pessoalmente a educação integral de meus filhos e com isso minha vida profissional ficou relegada a um segundo plano.
Existem muitas formas diferentes de se viver, mas vivemos no país do consenso. Em nossa sociedade o esperado é que todos vivam ordeiramente fazendo o que todo mundo faz. É como se outros modos de vida fossem realmente impossíveis. Acredito que temos um grave problema de imaginação. Objetivamente não é preciso coragem para ter muitos filhos. É preciso coragem para ir contra o consenso.
Evidentemente escolher é renunciar. Percebo que as pessoas realmente não fazem ideia das delícias de se ter uma família numerosa, mas de antemão renunciaram a ela por se sentirem obrigadas a fazer as coisas como a maioria das pessoas fazem.
Qualquer pessoa que tenha um filho sabe que a vida material e a rotina mudam radicalmente com a chegada dele, mas também sabe que o amor por essa pessoa é a mais maravilhosa dessas mudanças e preenche a vida de sentido. Quem no mundo voltaria no tempo e quereria não ter esse amor para ter mais conforto, mais tempo livre ou mais dinheiro? A lógica é bem simples. Amor não se divide. Mais filhos, mais amor. Uma família maior equivale a mais pessoas que se amam e se importam umas com as outras.
Imaginar que uma família maior é apenas uma conta maior no final do mês e um amontoado de funções a mais é semelhante a imaginar que ao casar se somará todas as atribuições que se tinha na casa paterna às novas que se tem na do casal. Não é assim.
Conforme a nossa família foi crescendo todos aprenderam amorosamente a ter autonomia, a cuidar de si mesmo, e, melhor ainda, a cuidar uns dos outros. Todos aprendem a partilhar e a colaborar. Ou seja, o trabalho que recai sobre os pais não cresce na proporção que nascem os filhos, pois o trabalho que os irmãos geram vai diminuindo na medida em que eles se tornam colaboradores. As despesas que mais um filho gera não são necessariamente multiplicadas, porque muito se aproveita do que já foi adquirido para os primeiros. Se os primeiros filhos perdem a exclusividade, ganham em amor. Se perdem em quantidade de bens materiais, ganham na quantidade de bens imateriais.
Todos tendem a pensar que a criança deve sofrer porque não tem o pai e a mãe só para si, ou porque não tem todos os brinquedos que vêem nas lojas. A realidade é que qualquer pequena dificuldade que se tenha não causa um sofrimento maior do que o da criança filha única que nunca está com os pais porque eles lutam tanto para dar coisas para ela que nunca têm tempo para estar com ela. Ou o pequeno sofrimento da criança solitária que pede irmãozinhos para os pais.
Penso que pessoas valem mais do que coisas. Por isso acredito que pequenos ciúmes ou pequenas privações materiais são educativas e que tornam nossos filhos seres humanos melhores. Pequenas privações ajudam a desprender o coração das coisas e nos ensinam que não somos o centro do universo. Agora, aqueles que pensam que devemos sacrificar relações em nome de coisas, que pessoas não devem existir para que outras pessoas tenham mais coisas, nem imaginam as delícias de uma família numerosa.

Como é possível passar todo o tempo com os filhos?

Acho interessante que de todas as possíveis dúvidas que se pode ter sobre educação domiciliar a mais comum seja “como é possível suportar passar o tempo todo com os filhos?” Já ouvi até que isso é impossível. Embora eu compreenda a dificuldade que isso representa na psique da mulher moderna, acho curioso que a tarefa simples, e que acompanhou as mulheres desde que existe humanidade, possa ser vista hoje como um bicho de sete cabeças.

Como muitos amigos perguntam se o estilo de vida homechooler é difícil, resolvi compartilhar um pouco de minha trajetória como mãe educadora. Para quem já experimentou a terceirização da educação dos filhos, o começo da escolarização em casa é um processo de desacomodação e reacomodação de todos. Até encontrar um equilíbrio em nossa vida tivemos que passar por uma série de tentativas e erros. Agora seguimos com muitas aventuras, com os rumos definidos, com muita tranquilidade, e com confiança no que estamos fazendo.

Uma das grandes dificuldades da adaptação não foi o trabalho que as crianças geram, foi abandonar um modo de vida autocentrado e me dedicar as necessidades de terceiros. Com isso eu pude perceber que ainda tinha – e tenho – muito que amadurecer.

É um desafio passar tanto tempo com os filhos. Com essa tarefa acabamos desenvolvendo a paciência, a resiliência, a fortaleza. Mas é principalmente uma fonte de muitas alegrias. De tudo isso só tenho o arrependimento de não ter começado antes.

Esse é um desafio bom. Ele fortalece e dá satisfação do dever cumprido. A maior dificuldade é enfrentar a cada dia as agruras de se ser quem se é, ou seja, é preciso procurar dia a dia ser alguém melhor, agir com mais amor, com mais coerência e integridade.

A primeira limitação de minha personalidade que tive que enfrentar foi a falta de paciência. Sempre soube que meu pavio é curto. Antes, o fato de que elas sairiam de perto de mim e que eu teria um tempo de sossego para gastar com as minhas coisas – ainda que fossem muitas vezes coisas chatas, penosas, ou obrigações de outro gênero – era o que me permitia relevar comportamentos irritantes e procrastinar com as tarefas de corrigir os problemas, de enfrentar as dificuldades, de educá-las e de orientá-las. Talvez por isso eu e tantas mães festejávamos o primeiro dia de aula.

Educação em casa não é assim. Aprecia-se na maior parte do tempo outro tipo de sossego. Um sossego com as crianças por perto. Um sossego com sons e trabalho.

Se uma criança está fazendo bagunça e isso nos incomoda nós queremos que o nosso desconforto cesse. Mas a realidade é que muitas vezes aquela bagunça não é inadequada, a bagunça que eles fazem ao tentar fazer as coisas por si mesmas, por exemplo, não é má.

Precisamos ensiná-los a fazer as coisas, ensiná-los a limpar a própria sujeira, a guardar os próprios brinquedos, a expressar os sentimentos de modo adequado. Mas isso envolve tempo e dá trabalho. Nesse tempo precisamos aprender a suportar muitas coisas, ou seja, é preciso desenvolver a virtude da paciência.

Hoje, quando vejo pequenos resultados de eu ter conseguido dominar a mim mesma e ter aceitado amorosamente as pequenas contrariedades e perseverado em assumir as rédeas desse trabalho urgente, e que na prática consiste em um somatório de pequenas generosidades, sinto uma grande satisfação. Como se meu coração tivesse se alargado e com ele minha capacidade de amar. Entendi que educar é educar nas pequenas coisas. Educar é se educar também.

Filhas, muito obrigada pelos desafios que vocês me levaram a enfrentar, vocês foram instrumentos que possibilitaram fazer de mim uma pessoa melhor.

Com a dedicação exclusiva aos filhos encontra-se realização pessoal

Um dos mais recorrentes questionamentos sobre as mães que se dedicam em tempo integral a educação dos filhos é sobre a realização pessoal. Dizem que uma mulher que abdica de exercer um trabalho profissional fora de casa não vai encontrar esse tipo de satisfação e portanto viverá uma vida sem sentido que revelará a plenitude de sua futilidade quando os filhos estiverem crescidos. Isso é um mito.
Quando minha primeira filha nasceu experimentei um dos momentos mais especiais de toda a minha vida. Ela fez de mim uma mãe. E com isso realizou uma parte do meu projeto de vida, um verdadeiro sonho, e foi aos poucos me tornando uma pessoa melhor. Hoje olhando para trás eu percebo que teria feito muita coisa diferente. Mas certamente essa reflexão não deriva de um sentimento de que deveria ter me dedicação maior a mim mesma.
Se eu pudesse voltar no tempo eu teria me preparado melhor para a maternidade. Naqueles dias me vi tão envolvida com um turbilhão de sentimentos, preocupações e uma infinidade de aprendizados de ordem prática que levaram alguns anos para a reflexão sobre os aspectos superiores da formação humana chegasse ao meu horizonte de consciência.
Quando minha filha começou a apresentar dificuldades que transcendem a vida natural biológica foi que me dei conta realmente de que minha filha era uma pessoa vivendo as primeiras experiências e formando a personalidade.
Educar é trabalho. Envolve despender tempo, energia e recursos. Independentemente de que se esteja fazendo isso de modo acidental ou de modo consciente. Os filhos estão absorvendo o que somos e fazemos e estão aprendendo a ser e a fazer.
Um dia ela mentiu. E toda uma preocupação de ordem transcendente apareceu para mim. É como se a até ali eu acreditasse inconscientemente que as crianças são um tipo de bom selvagem e que desenvolveriam um bom caráter simplesmente porque esse é o meu desejo. Mas, crianças são pessoas. Para elas se inicia toda a luta interior que marca a vida humana. Era preciso ensiná-la sobre isso!
Essa alma me foi confiada para que eu a oriente nesses preciosos primeiros anos. E agora? O que é fundamental que se ensine? Que efeitos as coisas que elas vivem hoje terão no futuro? Que tipo de práticas preciso empregar para que elas desenvolvam as grandes virtudes?
É inevitável que ao hierarquizar o que há de mais significativo para se transmitir aos filhos nos deparemos com perguntas sobre o sentido da vida. Percebo hoje a urgência de investir nesse dever que dá coerência e relevância para tudo que há de significativo em minha vida. Não há mais ninguém no mundo que seja mãe das minhas filhas, ou seja, essa é a tarefa urgente que me foi confiada. Pois, a infância de minhas filhas não vai esperar eu alcançar a minha realização pessoal, ela vai acontecer estando eu lá para ver ou não.
Percebo que há uma ganho enorme em elas saberem e testemunharem que ao educá-las cumpro com uma doce missão. Família pode ser um aprendizado contínuo sobre uma vida com sentido. Mesmo quando meu papel na vida delas não for tão constante terá valido a pena.

Ensine seus filhos a obediência para formar adultos verdadeiramente livres

Tenho visto muito ser dito acerca da supostos efeitos negativos de se ensinar aos filhos a obediência. Percebo que o modo como a questão é colocada faz parecer que ao ensinar um filho a obedecer se está criando uma pessoa reprimida, sem iniciativa e incapazes de seguir a própria consciência.

Por ser mãe e saber que a expectativa da obediência sempre visa o beneficio da criança, e muitas vezes um benefício que ela é incapaz de entender, e também porque a virtude da obediência é fundamental para todos, penso que ensinar alguém a resistir a autoridade paterna é o modo menos indicado para se atender a meta de criar adultos críticos e capazes de dirigir suas vidas pautados nas próprias ideias.

De modo geral desobedecer – principalmente na infância – é fácil. Para isso basta atender os próprio apetites, desejos e impulsos, ou seja, qualquer um é naturalmente inclinado para isso. Já obedecer é consentir voluntariamente com uma vontade que muitas vezes pode até ser oposta aos desejos e apetites. Exatamente por isso obedecer custa, exige esforço, demanda reflexão.
Ensinar um filho a virtude da obediência implica em proporcionar o desenvolvimento de uma liberdade muito maior do que simplesmente abandoá-lo a mercê de si mesmo. É necessário dominar a si mesmo para ser capaz de obedecer.
No entanto, o que vemos hoje em dia é que cada vez mais as pessoas estão enfraquecidas no que concerne à obediência e à força de vontade. É comum não conseguirem obedecer nem a si próprias!
São tão escravas das próprias paixões que não tem a liberdade para conseguir fazer uma dieta, ou para acordar no horário, ou para batalhar por uma conquista profissional, ou para resistir a um impulso de consumo.
É muito importante ensinar aos filhos a ponderar sobre as consequências das escolhas e das atitudes, é importante ensinar a refletir antes de agir, é importante que tenham  discernimento e que pautem livremente as atitudes segundo uma hierarquia de bons valores. É importante que entendam os princípios que receberam e que busquem a verdade, a nobreza, a justiça. E para que que consigam atingir essa maturidade precisamos exercer a autoridade paterna. Esse é um dever dos mais graves, pois a criança, que não tem o discernimento maduro, conta conosco para conduzi-la enquanto ela não estiver pronta para obedecer ou desobedecer com verdadeira liberdade interior. Contudo, deixar o filho sob o jugo da tirania de si mesmo é uma negligência covarde.

Educando em casa, construindo vínculos afetivos

Uma das primeiras experiências que tive de deslumbramento com a literatura se deu quando eu tinha uns 17 anos e me deparei com a obra de Clarice Lispector.

Eu simplesmente não conseguia parar de ler. Em pouco tempo li todos os livros dela que pude encontrar. Mais tarde me deparei com a biografia. Ela foi a primeira personalidade que me motivou a querer conhecer sua história e sua vida. Por seu modo intimista de escrever, sua sinceridade, seus símbolos, sua simplicidade… Aquilo me tocou profundamente. Era uma viajem no mundo interior de alguém. Uma viajem que sempre me conduzia rumo a minha própria interioridade onde os textos reverberavam apaixonadamente. Nessa semana quando fui na livraria encontrei uma coleção de livros dela para crianças!

Novamente Clarisse me possibilitou uma outra experiência inesquecível. Li para minhas filhas os livros e eis que minha pequena de 6 anos ficou fascinada por eles. Levou os livros para todos os lugares, pediu para que aqueles fossem exclusivamente dela e não da nossa biblioteca, pediu para a madrinha ler os livros para ela novamente, e depois os releu sozinha.

Não é a primeira vez que ela se encanta com uma história, mas dessa vez estava andando numa trilha que eu já percorri, e com o mesmo deslumbramento que eu já senti. Aquilo conversou com algo dentro dela daquele modo especial que a autora tem de conversar. Para mim foi muito gostoso ver minha filha viver uma experiência intelectual que eu vivi e que me foi tão cara. Minha filha não sabe, mas naquele momento criamos um vínculo novo cheio de carinho.

Esse é um dos motivos que me levam a amar partilhar da jornada intelectual delas: aprendemos juntas, testemunhamos mutuamente as alegrias e lutas umas das outras e desfrutamos da companhia uma da outra enquanto criamos um relacionamento muito rico e amoroso.