Trabalho doméstico na dose certa

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística constatou que metade das crianças e adolescentes em nosso país cumpre com afazeres domésticos, ajuda na produção para consumo familiar ou cuida de irmãos mais novos. Para o IBGE, essas atividades podem ser entendidas como trabalho infantil, porque entram em conflito com a educação formal.

É notório que a dedicação exclusiva de crianças e adolescentes ao serviço doméstico é descabida, e é evidente que não se pode delegar a eles toda a carga de responsabilidades que competem aos adultos. Nessa idade eles não estão plenamente maduros e treinados para cumprir com esses papéis. Mas a criança pode e deve contribuir com os afazeres domésticos, contanto que se tenha o cuidado de não comprometer outros aspectos importantes para o seu desenvolvimento.

Criança precisa de formação nos âmbitos físico, intelectual, socioafetivo, transcendente e volitivo. Por isso, além de contribuir com a família, é necessário que receba atenção de um adulto com o qual tenha vínculos de confiança e carinho, que tenha acesso a prática esportiva para que aprenda a dominar o próprio corpo, que aprenda a disciplina e a ordem para conquistar equilíbrio emocional, que brinque para harmonizar interiormente suas experiências de vida, que participe de atividades culturais, que tenha tempo para dedicar aos estudos. Porém, a participação nos trabalhos domésticos é fundamental para essa formação global do ser humano. Então, privar os jovens dos benefícios do serviço do lar é um modo de dificultar a educação em muitos de seus aspectos, inclusive no âmbito intelectual.

Tal é a importância das tarefas de vida prática que nas escolas montessorianas espalhadas pelo mundo desenvolvido – e que em nosso país constituem uma alternativa educacional cara e elitizada – as crianças recebem tarefas domésticas desde tenra idade para serem cumpridas visando benefícios intelectuais. Trocando em miúdos: investe-se pedagogicamente em atividades de limpeza e cuidados com o ambiente para que os estudantes aprendam a cuidar de seu espaço, a cuidar de si mesmos e, com isso, a respeitar o seu entorno e seus pares. Na fundamentação pedagógica dessa linha educativa está a ideia de uma educação cósmica que é edificada por meio de atividades simples do cotidiano. Os frutos desse esforço educativo vão além da aquisição de competências técnicas. Usa-se de atividades pouco valorizadas em nossa sociedade, como varrer o chão, passar pano na mesa ou lavar vasilhas para desenvolver competências intelectuais que são fundamentais para a vida acadêmica – ordenar, encontrar padrões, catalogar, estimar, comparar. Além disso, nessas tarefas se dá a educação do caráter e a conquista de qualidades humanas como a autonomia, a responsabilidade e, em última análise, um aprendizado de cidadania.

É notório que em países como Estados Unidos e Japão, onde a terceirização dos trabalhos domésticos é um luxo, as crianças são ensinadas a contribuir com a limpeza desde pequenas, tanto em casa quanto nas escolas. Isso é visto com naturalidade por ser parte da educação. As famílias se organizam delegando tarefas para todos os filhos, e contando com eles nos pequenos serviços de assistência mútua a todos os membros da família e da comunidade. É comum que adolescentes cuidem não apenas dos irmãos, mas que atuem como babás para vizinhos. Essa contribuição, que é importante para a administração do lar, não impede o sucesso acadêmico desses jovens, quando bem dosada.

Quando pensamos em educação, não podemos esquecer que ela deve atuar na integralidade da pessoa. Focar exclusivamente no aspecto acadêmico pode comprometer justamente o desenvolvimento acadêmico. Para a formação integral de um indivíduo visando o exercício pleno da cidadania, é preciso que ele esteja inserido em sua comunidade, aprendendo paulatinamente a administrar as demandas da vida adulta e conquistando maturidade e independência ao longo do processo educativo. Por isso, no ímpeto de melhorar a qualidade da educação em nosso país, corre-se o risco de piorá-la ao atribuir às tarefas domésticas o caráter de trabalho infantil. Visando melhorar o desempenho escolar de nossos jovens libertando-os de toda espécie de contribuição em casa, podemos formar pessoas despreparadas para a vida adulta. Portanto, as tarefas domésticas, quando bem dosadas, não podem ser desprezadas.

Jovens que não atuam na administração da casa, não cuidam de ninguém, não colaboram com a produção familiar estarão fragilizados diante das demandas futuras, e a sociedade receberá adultos infantilizados e dependentes de cuidados de terceiros. Precisamos de adultos capazes de cuidar de si e dos outros. Precisamos que nossos jovens conquistem a autoconfiança, fruto do exercício de suas competências como membros de uma comunidade com a qual precisam contribuir.

Lamentavelmente o serviço do lar é visto como degradante. Essa visão preconceituosa que se tem dos serviços domésticos em nossa cultura impede que a dignidade dos trabalhos de tantos jovens seja valorizada. Contribuir com o cuidado da casa, das pessoas da sua família, batalhar por bons resultados acadêmicos e aprender um ofício não são atividades excludentes, são todos aspectos importantes para uma vida equilibrada.

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A importância da Alegria na família

Filhos aprendem nossa verdadeira escala de valores e não aqueles valores pelos quais gostaríamos de viver. Ou seja, aprendem qual o verdadeiro valor que damos para as coisas, pessoas e situações conforme vamos vivendo segundo esses valores. Nos observam e estão aprendendo tudo o que transmitimos intencional ou não intencionalmente, seja de modo verbal ou não-verbal. Observam qual é o modo de lidar com as dificuldades, que podem ser simples descompassos na rotina ou graves problemas, observam se nos desesperamos, se nos iramos, como nos portamos.

Muitas vezes nos deixamos levar pela melancolia e acreditamos que nossas circunstâncias justificam a tristeza. Mesmo que tenhamos motivos para estarmos chateados não podemos perder de vista que o sucesso profissional, familiar, social, material, não coincide com a felicidade. Encontramos pessoas bem sucedidas nas diversas áreas que não são felizes. A harmonia familiar deve transcender as pequenas contrariedades, porque é natural que as biografias sejam permeadas por obstáculos, frustrações, dificuldades. Esses fatores são importantes para o amadurecimento da personalidade. Portanto, se pensarmos bem, muitas vezes ficamos esperando para prover uma atmosfera de amor, confiança e alegria quando as coisas em nossa vida estiverem mais dentro de nossas expectativas e com isso podemos estar esperando circunstâncias ideais para sermos felizes enquanto na prática terminamos apenas cultivando lares sombrios.
Afinal, problemas de saúde, preocupações, dificuldades financeiras sempre existirão. Não podemos esperar para sermos alegres quando tudo estiver bem. Por isso é muito importante que nos esforcemos para sermos alegres independentemente das circunstâncias, em meio às lutas usuais de cada dia. Para alcançar essa meta, o primeiro passo que devemos dar, e que devemos ensinar nossos filhos a aplicar, é deixar os sentimentalismos de lado e nos voltar para o bem-estar dos outros e manter em mente que aqueles que vivem conosco vão se beneficiar muito de nos ver alegres.
Para praticar com constância a alegria podemos tentar:
– Permear a vida da família de cordialidades recíprocas;
– Sorrir para nossos filhos mesmo quando não estamos com vontade. Não se trata de fingimento, ou de ser um bobo alegre, trata-se de um esforço para adquirir uma virtude ainda que as vezes isso possa ser uma pequena mortificação;
– Aceitar a realidade como ela se apresenta em nossas vidas, sem reclamações;
– Precisamos deixar que nossos filhos sofram. Precisamos aprender a suportar a dor deles. Mas estimulando-os a não perder a esperança e enfrentar com otimismo as dificuldades.

64 atividades simples para se fazer nas férias

Estamos em tempos de férias escolares. Essa é a época para o descanso, mas também podemos nos esforçar para proporcionar aos nossos filhos atividades que ao longo do ano não tiveram oportunidade de vivenciar. Para inspirar os pais que estão querendo fugir dos shoppings e do excesso de televisão reuni 64 atividades não escolares que fizemos ao longo desse ano e que apareceram em nosso diário no facebook. São coisas simples, de baixo custo, divertidas e alegres. Férias é a oportunidade ideal para crianças serem simplesmente crianças. Desejo a todos ótimas férias!
1
Faça um piquenique no parque

2

Relembre brincadeiras simples e antigas. Use as coisas da casa para fazer um cavalo ou para caminhar em latas.
3
Tome um banho de mangueira.

4

Vá andar de bicicleta em família.

5

Uma caixa plástica cheia de areia vira canteiro de obras de caminhões, deserto de bonequinhos, comidinhas de todos os tipo.

6

Faça bolhas de sabão.
7
Se reúna com amigos para fazer artesanato.
8
Com papel kraft e tinta guache, faça desenhos ou bagunça. Não se preocupe com a bagunça, lavar tudo em dia de sol é uma ótima atividade de férias.

9

Em um dia de chuvisco, tome um banho de chuva.

 

10

Encontre um local que tenha mapa e faça um passeio acompanhando-o. Se não encontrar, faça um mapa você mesmo.

11

Leia!

12

Vá com sua família correr em um parque.

13.

Encontre um parquinho e divirta-se!

14.

No dia seguinte encontre outro parquinho e divirta-se na areia.

15.

Procure uma trilha em sua cidade.

16

Aproveite a família reunida para fazer biscoitos. Não se preocupe com a bagunça, ajudar a limpar é uma ótima atividade de férias também.

17.

Leia na rede.

18.

Escale muitas árvores.

19.

Canetas de escrever em cd + canecas esmaltadas = canecas personalizadas.

20.

Cabanas! podem ser de panos ou de almofadas. O importante é usar a imaginação e fazer, cabanas previamente feitas não tem tanto sabor de férias.

21.

Visite a família.

22.

Se a criança sabe ler, que leia para os outros. Se ela ainda não sabe ler, que leiam para ela.

23.

Enquanto um adulto lê um livro mais extenso, As Crônicas de Nárnia, por exemplo, desenhe a história. Ao longo dos dias você fará um lindo álbum.

24.

Coloque bambolês no chão e brinque de tocas de coelhos.

25.

Encontre um parque onde possa jogar bola.

26.

Faça todo tipo de brincadeira com massinha de modelar.
Brincadeiras de massinha são divertidas com amigos também.

27.


Pular elástico. Diversão garantida.

28.

Cante.
29.
Que tal fazer uma deliciosa salada?

30.

Patine.
31.
Jogue bola e invente jogos.

32.

Brinque de se esconder.

33.

Brinque na terra.

34.

Faça um Quiet book.

35.

Cante! O cancioneiro popular fica mais divertido com alegria e instrumentos simples feitos com coisas da cozinha.

36.

Aproveite as áreas verdes para procurar diferentes tipos de pássaros e tirar fotos.

37.

Procure por folhas de formatos e cores diferentes. Uma ótima ideia é fazer um diário da natureza.

38.

Master Chef Junior.

39.

Que tal aproveitar as férias para visitar ainda mais lugares especiais.

40.

 

Aprenda a tocar uma música em um instrumento.
41.

 

Escale

42.

 

Brincadeiras sem brinquedo: Adoleta.
43.

 

Será que consegue ajuda para fazer um fogueira?

44.

 

Deitar e olhar as nuvens. Qual o formato mais divertido que encontrou?
45.

 

Afaste os móveis e brinque de fundo do mar.
46
Faça o mais lindo livro de colorir que conseguir.

 

 47.
Faça um bolo de iogurte. É fácil.
48.
Brinque embaixo da mesa.
 49.
Que tal conhecer uma história nova da Mãezinha do Céu e depois colorir com tinta aquarela.
50.
Reúna os amigos para fazer Scrapbook – se você for um menino, que tal fazer um craft?
51.
Encontre um parque que sua família ainda não conheça. Explore.
52.
Faça uma festa do pijama.
53.
Improvise balanças simples.
 53.
Faça uma trilha na natureza.

 

e passe bastante tempo junto da natureza.
 54.
Que tal procurar um local com animais de fazenda?
55.
Tente pescar em família.
 56.
Jogos, quebra-cabeças, tangram são ótimos para horas de chuva.
57.
Aprenda algum divertido artesanato.
58.
Alguns metros de corda geram as mais variadas brincadeiras: escalada, cabo de guerra.
 59.
Cuide de um Pet.

60.

Dê tempo para seu filho brincar com os presentes de Natal. Não precisamos programar todos os dias da vida deles. Tire dias para não fazer nada, afinal são as férias.

61.

Passe tempo com papai, talvez ele goste de jogar videogame.

62.

Encontre um local com balanço e aproveite.

63.

Quando o sol estiver adequado, aproveite um escorregador também.

64.

Se chover, chame os amigos para um cineminha em casa. Mas tente não ficar assistindo  televisão mais do que o tempo de um filme.

Como manter a sanidade tendo crianças em casa o tempo todo?

Ao se deparar com uma família numerosa é natural que as pessoas se assustem e imaginem que é um trabalho hercúleo coordenar e ainda ensinar esse pequeno time. O segredo do funcionamento do homeschooling é o segredo do bom funcionamento de qualquer família:
– regras consistentes,
– rotina e programação,
– crianças obedientes e cooperativas, que sabem o que é esperado delas, acostumadas a ter caridade com os irmãos vivendo a virtude da cortesia.
Entendo a dificuldade imaginativa que surge para os pais ao se depararem com essa nova realidade. Essas características atualmente aparentam ser uma realidade impossível. Concordo que educar em casa é muito difícil se existe luta para colocar as crianças na cama, se não conseguimos fazer com que elas se levantem no dia seguinte, se a criança não se alimenta adequadamente, se a casa fica muito bagunçada, se a criança não obedece quando a mãe lhe manda estudar, se impedimos que a criança enfrente os desafios, que se frustre, se a criança exige coisas e não sabe ser agradecida, se há excesso de consumo, se a caixa de brinquedos fica descontrolada e ficamos tropeçando em coisas pela casa. Mas a realidade é que não é desse modo ou pelo menos não deveria ser desse modo. Em nossa cultura atual o que é esperado das crianças em termos de bom comportamento e convivência é muito ruim. Os pais se veem reféns dos comportamentos inadequados dos filhos porque estão aprendendo isso com terceiros, e as escolas se veem reféns dos problemas comportamentais que as crianças trazem de casa e de pais omissos.
Enfim, para que a Educação Familiar corra bem é preciso que as crianças respondam com confiança e obedientemente às necessidades que surgirem em qualquer ambiente em que a família esteja. Ou seja, muitas coisas não associadas ao homeschooling são pré-requisito para o bom funcionamento da ED. É natural que nas famílias que educam os filhos em casa as crianças se comportem melhor por estarem sendo assistidas de perto pela família. Mas se você ainda está se debatendo com os desafios educacionais que decorrem dessa perspectiva de que as crianças são ingovernáveis, eu recomendo a leitura do livro It Does’t Have to be This Way.
Além disso, tenha paciência. No decorrer do tempo com os filhos em casa aprendemos a nos conhecer e conhecemos nossos filhos muito de perto. Criamos vínculos profundos e podemos traçar pequenos pontos de luta concretos para melhorar os pontos frágeis deles e nossos. A rotina educando em família exige que se viva em um esforço contínuo para se ser uma pessoa melhor visando o bem das pessoas que mais amamos, e que eles aprendam a lutar também. Mas precisamos ter resiliência nas quedas, paciência com os defeitos próprios e alheios. Afinal, mais importante do que uma fazer nossa programação perfeita é viver o amor em família.

É preciso escolarizar antes dos 4 anos?

Diz-se por aí que as crianças precisam ser precocemente estimuladas e isso está alarmando indevidamente as famílias. Não basta a criança ser estimulada, precisa ser muito estimulada. Não basta ser muito estimulada, precisa ser profissionalmente estimulada. Em função disso, muitas mães têm enormes receios de ficar com seus bebês em casa. Assediam-se os pais com a ideia de que bem antes da idade pré-escolar seus filhos podem estar perdendo alguma coisa e que ficarão atrasados se não forem para a escola precocemente.

Porém, essa mentalidade esbarra em um dado paradoxal: as crianças modernas que frequentam instituições profissionais de estímulos não conseguem se equiparar  em desenvolvimento motor,  autonomia e capacidade de concentração, às crianças de antigamente que brincavam livremente no quintal. Dado que essas competências são fundamentais para o aprendizado das disciplinas escolares pode-se concluir que a estimulação profissional não é necessariamente superior ao aprendizado natural que se tem em casa. Isso evidencia que não é necessário fazer um elaborado plano pedagógico para se ficar com bebês. 


Minha experiência como mãe e como educadora é a seguinte: criança pequena não precisa de instrução formal! O melhor que podemos fazer por nossos filhos nos primeiros anos de vida é permitir que descubram o mundo organicamente, pois os frutos da estimulação precoce são muitas vezes excessivos e potencialmente prejudiciais: tédio e estresse por não darem conta de acomodar os excessos de estímulo a que são expostos.


Os conteúdos acadêmicos não são o centro da educação de meus filhos até os 4 anos, pois nessa etapa aprender é brincar. Não são necessárias atividades dirigidas ou trabalhosas, é na simplicidade amorosa de um ambiente convidativo e tranquilo que o amor pelo conhecimento é alimentado. Nos primeiros anos escutamos contos de fadas e histórias sobre pessoas virtuosas, aprendemos a respeitar os outros e a conviver em um ambiente mantendo a ordem e seguindo as regras, exploramos o mundo que nos cerca e a natureza, conhecemos e experimentamos as arte. Desta forma nossos filhos estão descobrindo as capacidades e limites  do próprio corpo e dos sentimentos, e, assim, vão desabrochando em um ritmo orgânico para as descobertas intelectuais.


A melhor escola de estimulação motora se chama parque ou quintal, a melhor escola de socialização se chama interação de qualidade com pais, irmãos e com as outras pessoas de todas as idades com que eles se deparam no cotidiano; brinquedos bons são potinhos da cozinha, pedrinhas, toquinhos de madeira; aprender a amarrar os próprios calçados e a vestir as próprias bonecas é o melhor trabalho de coordenação motora; ouvir música clássica enquanto a mãe cozinha é melhor do que aulas barulhentas com infinitos recursos, que somente são necessários para que o grupo se mantenha atento, mas que por excesso de estimulo reduzem  a atenção; pode ser ensinado mais inglês usando palavras e expressões no dia a dia do que em cursos caros.


Uma criança segura e amada em casa desabrocha naturalmente. Programas de estímulo são ótimos, mas não são uma necessidade. Existem para que quem não tem com quem brincar não fique abandonado na frente da televisão, ou para que algumas mães assoberbadas de tarefas tenham um horário na agenda para ter tempo de qualidade com o filho. Não precisamos ceder a pressão social que quer inventar necessidades para as crianças.

A melhor coisa para uma criança é a família. Entre investir em cursos, brinquedos e programas, ou investir em ter um irmão, o irmão é uma alternativa muito mais rica para o desenvolvimento humano integral.

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Estou educando meus filhos para ganhar o mundo inteiro e perder a alma?

Quando olhamos o panorama das ideias sobre educação percebemos que tudo o que se propõe parte de algum entendimento sobre o que é o ser humano e qual o seu papel no mundo. Os pais, por sua vez, quando vão em busca de instrução para seus filhos muitas vezes estão preocupados com uma formação utilitarista que vise a formação profissional e a inserção na sociedade, e, por isso, muitas vezes não compreendem que a visão de mundo e de ser humano que muitas instituições têm pode ser incompatível com suas filosofias pessoais de vida. Não podemos cair nesse erro. De que adiantaria para nossos filhos ganhar o mundo inteiro e perder a alma?
Independentemente da linha pedagógica que se tenha comprado nas prateleiras do supermercado das tendências de formar ou reformular o ser humano, acredito que todos os pais pretendem educar um homem feliz. Mas, acredito que todas as pessoas razoáveis sabem que não existe vida cor de rosa. Nossos filhos precisarão passar por dificuldades, por problemas e por sofrimentos. Essas situações adversas são importantes para fortalecer a personalidade, então tomara que passem por contrariedade, pois o resultado de todos os esforços paternos de “poupar os filhos de passarem por tudo o que eu passei” invariavelmente é filhos adultos frágeis ou egoístas. Tudo o que passamos de dificuldade na vida é ocasião para que desenvolvamos o melhor de nos mesmos. Quando penso num plano educativo para minha família preciso pensar em que tipo de valores humanos estou transmitindo com minhas ações? Quais características estou permitindo que meus filhos desenvolvam com isso? Quais traços de caráter eu pretendo estimular que desenvolvam? Seria a sinceridade? Seria a bondade? Seria a generosidade? Que situações estou propondo para que meu filho possa exercitar essas qualidades e assim se tornar um ser humano melhor.
É fundamental que nossos filhos desenvolvam a coragem para enfrentar a vida e a sinceridade para buscar a verdade. Uma vez que quem busca a verdade busca Deus, o objetivo principal da educação deve ser instalar a criança na realidade com um senso de honestidade intelectual estimulando o amor pelo bem, pelo belo, pela verdade. Mas, como é muito fácil para o ser humano ser vítima das mentiras que conta para si mesmo criando raciocínios complicadíssimos para fugir da própria intuição, devemos ensinar nossos filhos a lutarem consigo próprios para que conquistem virtudes. Seja deixando que se confrontem com os próprios problemas, seja apontando amorosamente a verdade sobre si mesmo.

Quantidade ou Qualidade no tempo em família?

Uma das delícias da Educação domiciliar é passar tempo em quantidade com os filhos.
Escuto muito a história de que a qualidade do tempo é mais importante do que a quantidade. E isso tem lá seu fundo de verdade. Mas existe o perigo de se passar tão pouca quantidade de tempo em casa com a família que a qualidade fica comprometida também. Muitas vezes o que se faz é indulgenciar os filhos ou evitar corrigir os comportamentos inadequados, pois se sente que por passar tão pouco tempo juntos não se deve perder qualidade em conflitos. Mas, por amor aos nossos filhos, não podemos nos esquivar da correção e torcer para que eles se eduquem sozinhos. Precisamos atuar.
Os efeitos disso na educação dos filhos são agravados porque os demais cuidadores da crianças não tem autoridade para fazer o que é trabalho dos pais. O resultado é que a educação fica muito aquém da que seria se a mãe fosse mais presente.
Tempo de qualidade não quer dizer necessariamente tempo de prazer. Passar tempo de qualidade com os filhos, no meu entendimento, é estar com os filhos prestando atenção neles, interagindo com eles e buscando suprir suas necessidades reais. Para saber exatamente o que cada criança necessita, para ensinar o modo apropriado de se comportar, para auxilia-los a entender seus sentimentos, para poder aproveitar alguma atividade juntos, é necessário conhecer seu filho. E para isso é fundamental uma significativa quantidade de tempo.
Para a Criança a quantidade de tempo empreendida ao lado dos pais é sempre boa. Mesmo sem qualidade, a simples quantidade de tempo juntos é positiva. A criança é educada pelo exemplo. Se queremos que nossos filhos tenham os nossos valores não basta vê-los meia horinha no final do dia na frente da televisão. Quanto mais eles nos observarem mais aprenderão. Eles não necessitam ser o centro de nossa atenção o tempo todos. Mas é bom que eles estejam por perto. Além disso, essa proximidade física é condição para a proximidade psicológica. Precisamos gastar tempo para construir vínculos.
É evidente que cada família é única. Que as circunstâncias particulares diferem e que não dá para aplicar regras gerais. Mas as mães deveriam se perguntar: o espaço que o trabalho ocupa em minha vida é adequado para minha realidade? Dentro de minhas possibilidades de vida há equilíbrio entre meu trabalho e minha vida familiar? Há como eu estar mais próxima?
Uma vez que a coisa mais importantes que podemos e devemos dar aos nossos filhos não custam dinheiro – valores, exemplos, educação moral, senso transcendente da vida, amor, carinho, ou seja, precisamos dar o nosso tempo, precisamos dar a nós mesmos – porque não nos perguntamos se com uma estilo de vida mais modesto não conseguimos encontrar mais tempo?
Sem encontrar tempo para os filhos, nossa história de vida passa a ser: quando finalmente tivermos dinheiro suficiente para nos dar ao luxo de ter tempo para nossos filhos são eles que não terão tempo para nós. 

É coragem ter muitos filhos?

Imagine a seguinte cena: uma pessoa com os olhos arregalados, tomada por espanto e divertimento dizendo “CINCO?!”. Essa é a reação universal das pessoas quando respondo a pergunta “é seu primeiro filho?”. Depois de exclamar alguma variedade de “que coragem!”, “que loucura” ou “que irresponsabilidade” me perguntam “como você consegue?”. A realidade é que ter cinco filhos não é como se imagina. Sim, eu consigo. E acho que a história humana prova que eu não sou nenhuma super mulher por isso.
Parece-me que as pessoas se surpreendem tanto com a vida que nós levamos porque imaginam a própria rotina e a própria vida e colocam imaginativamente nela mais crianças e isso lhes parece o caos. Mas na realidade percebo que muitas vezes meus 5 filhos dão menos trabalho do que uma única criança de algumas famílias que se surpreendem por termos tantos filhos. 
Sim, nós conseguimos. Nós não temos cinco babás; eu não passo o dia todo no tanque lavando roupa, nem na cozinha; nosso dinheiro não dá em árvore; sobra tempo para eu fazer as minhas coisas pessoais; eu e meu marido conseguimos conversar e dar uma atenção um para o outro e fazer todas as refeições juntos em família. Levamos elas para fazer compras conosco, para passear, conseguimos dar atenção exclusiva para cada uma.
A pergunta que se segue é “você não trabalha, né?” De fato o trabalho profissional não é a minha prioridade. Aqui é a deixa para muitas mulheres admitirem que gostariam de ter muitos filhos, mas que para elas é impossível porque precisam trabalhar. Acredite, uma família numerosa não necessariamente inviabiliza o trabalho profissional fora de casa. Conheço algumas mães de famílias ainda maiores do que a minha que trabalham fora de casa. Acontece que EU optei por assumir pessoalmente a educação integral de meus filhos e com isso minha vida profissional ficou relegada a um segundo plano.
Existem muitas formas diferentes de se viver, mas vivemos no país do consenso. Em nossa sociedade o esperado é que todos vivam ordeiramente fazendo o que todo mundo faz. É como se outros modos de vida fossem realmente impossíveis. Acredito que temos um grave problema de imaginação. Objetivamente não é preciso coragem para ter muitos filhos. É preciso coragem para ir contra o consenso.
Evidentemente escolher é renunciar. Percebo que as pessoas realmente não fazem ideia das delícias de se ter uma família numerosa, mas de antemão renunciaram a ela por se sentirem obrigadas a fazer as coisas como a maioria das pessoas fazem.
Qualquer pessoa que tenha um filho sabe que a vida material e a rotina mudam radicalmente com a chegada dele, mas também sabe que o amor por essa pessoa é a mais maravilhosa dessas mudanças e preenche a vida de sentido. Quem no mundo voltaria no tempo e quereria não ter esse amor para ter mais conforto, mais tempo livre ou mais dinheiro? A lógica é bem simples. Amor não se divide. Mais filhos, mais amor. Uma família maior equivale a mais pessoas que se amam e se importam umas com as outras.
Imaginar que uma família maior é apenas uma conta maior no final do mês e um amontoado de funções a mais é semelhante a imaginar que ao casar se somará todas as atribuições que se tinha na casa paterna às novas que se tem na do casal. Não é assim.
Conforme a nossa família foi crescendo todos aprenderam amorosamente a ter autonomia, a cuidar de si mesmo, e, melhor ainda, a cuidar uns dos outros. Todos aprendem a partilhar e a colaborar. Ou seja, o trabalho que recai sobre os pais não cresce na proporção que nascem os filhos, pois o trabalho que os irmãos geram vai diminuindo na medida em que eles se tornam colaboradores. As despesas que mais um filho gera não são necessariamente multiplicadas, porque muito se aproveita do que já foi adquirido para os primeiros. Se os primeiros filhos perdem a exclusividade, ganham em amor. Se perdem em quantidade de bens materiais, ganham na quantidade de bens imateriais.
Todos tendem a pensar que a criança deve sofrer porque não tem o pai e a mãe só para si, ou porque não tem todos os brinquedos que vêem nas lojas. A realidade é que qualquer pequena dificuldade que se tenha não causa um sofrimento maior do que o da criança filha única que nunca está com os pais porque eles lutam tanto para dar coisas para ela que nunca têm tempo para estar com ela. Ou o pequeno sofrimento da criança solitária que pede irmãozinhos para os pais.
Penso que pessoas valem mais do que coisas. Por isso acredito que pequenos ciúmes ou pequenas privações materiais são educativas e que tornam nossos filhos seres humanos melhores. Pequenas privações ajudam a desprender o coração das coisas e nos ensinam que não somos o centro do universo. Agora, aqueles que pensam que devemos sacrificar relações em nome de coisas, que pessoas não devem existir para que outras pessoas tenham mais coisas, nem imaginam as delícias de uma família numerosa.

Com a dedicação exclusiva aos filhos encontra-se realização pessoal

Um dos mais recorrentes questionamentos sobre as mães que se dedicam em tempo integral a educação dos filhos é sobre a realização pessoal. Dizem que uma mulher que abdica de exercer um trabalho profissional fora de casa não vai encontrar esse tipo de satisfação e portanto viverá uma vida sem sentido que revelará a plenitude de sua futilidade quando os filhos estiverem crescidos. Isso é um mito.
Quando minha primeira filha nasceu experimentei um dos momentos mais especiais de toda a minha vida. Ela fez de mim uma mãe. E com isso realizou uma parte do meu projeto de vida, um verdadeiro sonho, e foi aos poucos me tornando uma pessoa melhor. Hoje olhando para trás eu percebo que teria feito muita coisa diferente. Mas certamente essa reflexão não deriva de um sentimento de que deveria ter me dedicação maior a mim mesma.
Se eu pudesse voltar no tempo eu teria me preparado melhor para a maternidade. Naqueles dias me vi tão envolvida com um turbilhão de sentimentos, preocupações e uma infinidade de aprendizados de ordem prática que levaram alguns anos para a reflexão sobre os aspectos superiores da formação humana chegasse ao meu horizonte de consciência.
Quando minha filha começou a apresentar dificuldades que transcendem a vida natural biológica foi que me dei conta realmente de que minha filha era uma pessoa vivendo as primeiras experiências e formando a personalidade.
Educar é trabalho. Envolve despender tempo, energia e recursos. Independentemente de que se esteja fazendo isso de modo acidental ou de modo consciente. Os filhos estão absorvendo o que somos e fazemos e estão aprendendo a ser e a fazer.
Um dia ela mentiu. E toda uma preocupação de ordem transcendente apareceu para mim. É como se a até ali eu acreditasse inconscientemente que as crianças são um tipo de bom selvagem e que desenvolveriam um bom caráter simplesmente porque esse é o meu desejo. Mas, crianças são pessoas. Para elas se inicia toda a luta interior que marca a vida humana. Era preciso ensiná-la sobre isso!
Essa alma me foi confiada para que eu a oriente nesses preciosos primeiros anos. E agora? O que é fundamental que se ensine? Que efeitos as coisas que elas vivem hoje terão no futuro? Que tipo de práticas preciso empregar para que elas desenvolvam as grandes virtudes?
É inevitável que ao hierarquizar o que há de mais significativo para se transmitir aos filhos nos deparemos com perguntas sobre o sentido da vida. Percebo hoje a urgência de investir nesse dever que dá coerência e relevância para tudo que há de significativo em minha vida. Não há mais ninguém no mundo que seja mãe das minhas filhas, ou seja, essa é a tarefa urgente que me foi confiada. Pois, a infância de minhas filhas não vai esperar eu alcançar a minha realização pessoal, ela vai acontecer estando eu lá para ver ou não.
Percebo que há uma ganho enorme em elas saberem e testemunharem que ao educá-las cumpro com uma doce missão. Família pode ser um aprendizado contínuo sobre uma vida com sentido. Mesmo quando meu papel na vida delas não for tão constante terá valido a pena.

Ensine seus filhos a obediência para formar adultos verdadeiramente livres

Tenho visto muito ser dito acerca da supostos efeitos negativos de se ensinar aos filhos a obediência. Percebo que o modo como a questão é colocada faz parecer que ao ensinar um filho a obedecer se está criando uma pessoa reprimida, sem iniciativa e incapazes de seguir a própria consciência.

Por ser mãe e saber que a expectativa da obediência sempre visa o beneficio da criança, e muitas vezes um benefício que ela é incapaz de entender, e também porque a virtude da obediência é fundamental para todos, penso que ensinar alguém a resistir a autoridade paterna é o modo menos indicado para se atender a meta de criar adultos críticos e capazes de dirigir suas vidas pautados nas próprias ideias.

De modo geral desobedecer – principalmente na infância – é fácil. Para isso basta atender os próprio apetites, desejos e impulsos, ou seja, qualquer um é naturalmente inclinado para isso. Já obedecer é consentir voluntariamente com uma vontade que muitas vezes pode até ser oposta aos desejos e apetites. Exatamente por isso obedecer custa, exige esforço, demanda reflexão.
Ensinar um filho a virtude da obediência implica em proporcionar o desenvolvimento de uma liberdade muito maior do que simplesmente abandoá-lo a mercê de si mesmo. É necessário dominar a si mesmo para ser capaz de obedecer.
No entanto, o que vemos hoje em dia é que cada vez mais as pessoas estão enfraquecidas no que concerne à obediência e à força de vontade. É comum não conseguirem obedecer nem a si próprias!
São tão escravas das próprias paixões que não tem a liberdade para conseguir fazer uma dieta, ou para acordar no horário, ou para batalhar por uma conquista profissional, ou para resistir a um impulso de consumo.
É muito importante ensinar aos filhos a ponderar sobre as consequências das escolhas e das atitudes, é importante ensinar a refletir antes de agir, é importante que tenham  discernimento e que pautem livremente as atitudes segundo uma hierarquia de bons valores. É importante que entendam os princípios que receberam e que busquem a verdade, a nobreza, a justiça. E para que que consigam atingir essa maturidade precisamos exercer a autoridade paterna. Esse é um dever dos mais graves, pois a criança, que não tem o discernimento maduro, conta conosco para conduzi-la enquanto ela não estiver pronta para obedecer ou desobedecer com verdadeira liberdade interior. Contudo, deixar o filho sob o jugo da tirania de si mesmo é uma negligência covarde.