Luta, queda, recomeço

Acho curioso quando escuto que transmito serenidade. Serenidade? Mesmo? Acho que ela veio depois de perceber que estando agitada ou serena a vida acontece inexorável. Quem já sofreu pode testemunhar que não há humilhação, tristeza, perda, vergonha, queda, medo, que não nos transforme. Durante uns tempos, dominada pelo orgulho, e pelo medo de não atender as expectativas que eu tinha sobre mim mesma, eu escolhia sempre fugir da briga. Preferia o palco de minha interioridade com um único espectador que me idolatra: eu. O pior é que esse eu idolatrado nem é verdadeiramente a pessoa que sou. É uma projeção da pessoa que eu gostaria de ser. Sem nos lançar na vida pra valer estamos protegidos da hipótese de descobrir a própria mediocridade. Ser mãe amenizou essa covardia. Entrei no ringue da vida pra valer. Eu não consigo nem mesmo dimensionar quantas surras eu levei, quantas vezes saí humilhada, quantas vezes os meus resultados patéticos e as incompetências óbvias riram de meu orgulho alucinado. Não é preciso público para testemunhar os pequenos fracassos: a rotina que não se ajeita, a casa que testemunhava o quão ruim me saí como sua dona, as dificuldades para acertar na educação dos filhos, a esposa mimada e voluntariosa que teima em aparecer. Chorei pelos projetos que deixei de lado para me dedicar aos filhos pequenos, e chorei pelos filhos pequenos quando os deixei de lado para me dedicar aos meus projetos desordenadamente. Descobrir tudo o que faço mal doeu, ver tudo o que deu errado doeu. Mas só a partir disso comecei a viver na realidade e saborear alguma humildade, que é uma fidelidade à verdade daquilo que somos. A serenidade não me é natural, é uma graça que recebi ao desapegar um pouquinho dos resultados, ao desapegar um pouquinho de mim. Daí é que começam a surgir as minúsculas vitórias reais: a rotina que funciona, o grito que engoli, o sorriso do filho que consegui aproveitar porque não estava distante pelo estresse. Não vejo um atalho quando olho para o passado, nem quando olho para o futuro. Minha história é tremendamente comum: luta, queda, recomeço.

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