Mãe no século XXI

Entre nós mães católicas, mães educadoras, mães que leem, existe uma certa nostalgia com o passado. Um tempo onde os valores, a cultura, os costumes eram outros e eram bons. Há tantos tesouros em nossa tradição que hoje são vistos com desconfiança pela cultura moderna que acabamos saudosistas. Recentemente ouvi de uma amiga querida que o esposo dela gosta muito de mim, mas que se preocupa de que ela só se influencie pelas coisas boas e não pela abertura a vida que é algo medieval aos olhos dele. Tomara que ele esteja certo e que nosso Senhor cubra meus defeitos e que minhas amigas aproveitem de mim só o que possa edificar sua família. Mas não é por romantismo de um passado imaginário que somos abertos a vida. Esse é um valor atemporal que se tornou tão estranho em nossos dias que parece coisa antiga, mas não é. E, na verdade, ainda que eu suspire com a arte, a música, a literatura clássica, eu sou uma mulher do século XXI e sou uma mãe do século XXI muito bem resolvida com o tempo e o lugar em que Papai do céu escolheu para mim.

Estudando com as meninas sobre as cruzadas aprendemos que na idade média banho era a cada seis meses! Ficamos todos gratos pelos tempos em que vivemos. Existem tantas coisas boas nas modernidades. Tenho tantas e boas amigas virtuais, faço cursos online, escuto meditações, compro na internet, acho o Google um aliado no homeschool. Não imagino o que seria de mim sem minha lava louça, lava roupa. Como viviam antes dos tecidos que não precisam ser passados?! Faz uns tempos tive que dirigir uma kombi 89 por uns meses e concluí que a modernização dos carros é uma dádiva para as mães. Isso sem falar dos antibióticos, da anestesia, óculos, o que seria de mim sem os avanços nas técnicas de parto cirúrgico?!

O mundo em que vivemos é bom! Cada época tem seus desafios, suas alegrias. O verdadeiro campo de batalha é o coração dos homens, pois existem coisas que são usadas de modo mau. Mas o pecado está na alma dos homens, não nas coisas. Cabe a nós homens de nosso tempo dar a essa cultura o tom de nobreza moral que imaginamos no passado. Podemos elevar nosso meio e formar consciências em conformidade com valores atemporais. Mas não é com saudosismos que resgataremos o que se perdeu. É vivendo com fidelidade e coerência nossa vocação cristã nesse tempo do WhatsApp. Afinal, Deus não nos abandonou.

Nesse sentido, senpre tenho em mente que meus filhos são crianças do século XXI. São pessoas confiadas a mim para serem educadas, mas que me devem obediência somente até os 18 anos. Depois disso estarão totalmente livres nesse mundo atual para fazer as próprias escolhas. O adulto forte e íntegro que eu sonho ver não florescerá no século XII, estará andando nessa rua, vendo esta arquitetura, comendo essa comida e navegando nessa Internet. Por isso, acredito na educação para a liberdade.

Prefiro ser intransigente com o que é mau do que impor os meus gostos e preferências a torto e a direito. Penso que gradualmente eles precisam ganhar a liberdade conforme se dá o amadurecimento de seus critérios. Não convém ser intransigente com o que é moralmente mau com a mesma intensidade do que com o que é opinável. O fundamental, por exemplo, é educar sobre a modéstia e a dignidade da mulher. Importa que carreguem esse valor pela vida, não importa com quais acessórios viverão esse valor. É claro que eu prefiro que todos gostem do que eu gosto. Mas eles são diferentes de mim em tanto – e melhores do que eu em muito. Respeitar a liberdade dos filhos é um exercício muitas vezes difícil, mas importante.

Semana Santa, a cada ano uma lição

A cada ano a quaresma trás alguma tensão em meu coração, que vai se agravando, até a chegada da Semana Santa quando algum aspecto da história da salvação ganha uma nova luz para mim. Percebo que é preciso voltar muitas vezes ao pé da cruz e pedir ao Senhor que eu veja o que minha alma precisa. E a cada ano me é oferecida uma oportunidade de crescer de fé em fé, de amor em Amor.

Álvaro nasceu no primeiro dia da quaresma no ano passado, foram quarenta dias intensos. Quando chegou a Sexta-feira Santa e a memória da paixão, eu ainda sentia dores do pós parto. A cada passo da história, a dor de Cristo me doía. Eu que sofria por ter amado – mas sofria mal – imaginava e me comovia com a loucura de amor de nosso Senhor, minha carne podia entrever o que poderia ter sido o “esse é o meu corpo que será entregue por vós”. Nunca saberei ao certo o quanto sofreu Cristo, mas eu aprendia por meio de minha dores, a agradecer o Amor com que me amou o Senhor.

No ano anterior, nesses dias eu acompanhava Leonelzinho na fisioterapia. Meu bebezinho chorava a cada minuto e eu sabia o quanto aqueles instantes de desconforto eram importantes. Não podia acalentar nem impedir, e me partia o coração vê-lo sofrendo diante de meus olhos. Na semana da paixão, estar com Nossa Senhora transformou meu coração. Como pode uma mãe suportar tal dor? Como poderia ser minha mãe também tendo eu colocado tantos espinhos naquela coroa? Aquela semana santa me amadureceu o amor pela Santíssima virgem Maria.

Outra vez, vivi dias em que não aceitei bem os dissabores naturais da vida, estava frustrada, braba com Deus que não faz a minha vontade mesquinha. Ouvi os evangelhos sobre o povo que dizia hosana num dia e no outro gritava “crucifica-o” e entendi que minha alma estava respresentada ali. Como não se render diante de tal Amor que morreu por mim? Que alegria perceber que somos pecadores e indignos do Amor recebido.

Nesse ano, vivi uma quaresma marcada pela angústia do parto que virá, antecipando na imaginação os meses dolorosos pós cirurgia. Meu coração se rebela e a ansiedade me tira do amor presente e me coloca no egoísmo vitimista. Nesse ano a meditação da semana santa me permitiu estar melhor com Cristo na agonia depois da última ceia. A antecipação, a angústia, a aceitação, o amor.

Que alegria imaginar que a cada ano temos um tempo para recordar o quanto somos amados. Um tempo para recordar que somos cuidados pelo Todo poderoso. Um tempo para conversão e alegria. Oh Cristo – dizemos com o Santo Padre João Paulo II –, como não te dar graças pelo dom inefável que nos ofereces nesta noite! O mistério da tua Morte e da tua Ressurreição infunde-se na água batismal que acolhe o homem velho e carnal, e o faz puro, com a mesma juventude divina.