Porque faço homeschool?

Homeschool é um estilo de vida no qual a família vive comprometida com a educação integral dos filhos o tempo todo. Esse é o modelo que combina com minha família.

Desde 2013, quando abraçamos o homeschool, passamos a viver em um ritmo de vida mais calmo. Mesmo com muitos afazeres estamos desprendidos da correria do mundo moderno. Podemos parar e conversar olhando no olho. Podemos fazer pausas para recuperar o fôlego, podemos cozinhar e desfrutar do aroma e sentar para as refeições sem pressa.

Procuramos oferecer estudos sob medida para cada um. Eles andam em seu ritmo. Alguns avançam anos a frente do que estariam aprendendo na escola, outros se demoram reforçando o que é difícil. Como avançar nessa medida no ensino de massa?

Priorizamos um modo de socialização sadia na qual eles se tornam respeitosos, autoconfiantes, tranquilos, responsáveis. Isso não impede que encontrem desafios e conflitos. Sempre existem desafios. Mas convivem de modo natural com o mundo ao seu redor, com os vizinhos, parentes, com professores e colegas nas atividades extra-classe, com meus amigos e com os filhos de meus amigos, com o grupo de apoio de educação domiciliar.

Além disso, concordamos com a neurociência quando diz que a qualidade do aprendizado depende principalmente da qualidade do relacionamento entre a criança e o educador. No relacionamento familiar esse vínculo existe naturalmente. Em casa aprendemos a servir, a ter autonomia, disciplina, seriedade e serenidade. Não é uma educação para estar fechado em si mesmo. É uma vida de aprendizado sobre amor ao próximo. Sobre Deus se alegrar quando fazemos o bem.

20150102_031924 (1)

Nunca fui contra escola. Mas quando me tornei mãe intui que educação vai muito além do que o que a escola pode oferecer. É um dever e um direito dos pais. Aprendi que a escola deve ser uma parceira da família no que se refere à educação intelectual. Porém junto com o intelectual vem um pacote. A criança recebe um ambiente afetivo, convivência, uma visão de mundo, um estilo de socialização, um formato de aprendizagem. Por isso, escolher a escola é uma tarefa muito séria. E acompanhar o que acontece lá é fundamental.

E o que fazer quando algum desses aspectos não atende as necessidades da criança? Quando a socialização não é boa? Quando a criança não aprende? Quando seu filho aprende conteúdos defasados? Quando aprende a desprezar os valores dos pais? Não existe uma resposta única para isso, cada família encontra a sua. Porém vivemos num país em que muito se reclama do sistema de ensino falido. Mas pouco se faz além de considerar esse lastimável dado como algo que precisamos simplesmente aceitar. Afinal o que os pais podem fazer? Não podemos reconstruir o sistema, mas podemos assumir a educação daqueles que são nossa responsabilidade.

Quando coloquei meus filhos na educação infantil me deparei com as dificuldades do sistema de ensino. Escolhi uma escola ótima que foi uma parceria excelente. Tudo o que aprendi lá sobre educação permitiu que eu descobrisse o homeschooling e me apaixonasse pela ideia. Por acreditar que poderia ser isso o melhor para nossa família, reunimos ânimo para ir contra o consenso. Nossa experiência educacional sempre foi muito serena, pois a escola é sempre uma possibilidade ao alcance da mão.

Chá com poesia

Quando pensamos em uma boa educação, precisamos pensar em atuar com intencionalidade. Ou seja, podemos escolher nossas ações tendo em vista  o que queremos estimular  em nossos  filhos e oferecer  situações concretas para que eles exercitem bons hábitos.  Esses serão fundamentais na aquisição das virtudes e no fortalecimento da personalidade.

 

Pais que se dão ao trabalho de estabelecer os padrões de comportamento e encaminhar a criança de modo a vivenciar o que é bom, terão dias mais tranquilos, desfrutarão melhor da convivência familiar e deixarão para seus filhos um tesouro. Pois quem tem um bom hábito é livre para aplicá-lo ou não, quem não estabeleceu um bom hábito precisa de um grande esforço e domínio de si para conquistá-lo. Ou é consumido por vícios que dominam sua liberdade de decisão.

A educação domiciliar permite que os pais promovam atividades educativas visando a formação global da personalidade. Estamos preocupados com uma sólida formação intelectual, mas não perdemos de vista que a formação socio-afetiva, moral, transcendente, volitiva, física, sensorial e do caráter fazem parte da pessoa e precisam de encaminhamento. Todos esses âmbitos, que se intercomunicam na vida real são educados em situações pontuais e corriqueiras.  Portanto não educamos só quando queremos. Educamos com o que somos, com nossa conduta, com o ambiente de nossas casas. Precisamos algumas vezes aproveitar oportunidades educativas e outras vez criar eventos como um chá com poesia.


O “Chás com Poesia”, inspirado no trabalho de Julie Bogart, é uma prática que tem conquistado mães que educam em casa em todo o mundo. Trata-se simplesmente de leitura ou de declamação de poesia previamente decoradas à mesa durante um chá com guloseimas. A vivência dessa atividade é ocasião para que se eduque em múltiplos aspectos.

Primeiro, podemos envolver a criança no preparo dos biscoitos e do chá que serão servidos. Cozinhar em casa é uma atividade sensorial muito rica e uma oportunidade de aprender matemática na prática. Ao fazer biscoitos a criança desenvolve a coordenação, trabalha medidas, contagem e modelagem. Para isso, é preciso tomar algumas precauções de segurança e preparar previamente o espaço da cozinha além do ânimo, com uma dose extra de paciência, pois crianças podem fazer uma certa bagunça. Se mostrarmos passo a passo e em silêncio o que esperamos que façam, elas se esforçarão para repetir o que viram dentro de suas possibilidades. Essa é a ocasião para animá-las a exercitar a concentração e o capricho. Terminada a feitura das guloseimas, podemos ensinar que ordenem os utensílios e que cuidem dos detalhes para que o ambiente fique como foi encontrado no início. A repetição desse tipo de exigência carinhosa é benéfica para todos que ganharão com a capacidade de gerir e respeitar o espaço.

A preparação da mesa para o Chá com Poesia também é uma oportunidade educativa. A criança pode, por exemplo, treinar como carregar uma bandeja. Essa atividade simples exige coordenação e atenção e é um treino de vida prática montessoriano desafiador para crianças pequenas. Ensinamos a alegria no cuidado com os detalhes, por exemplo, ao sugerir que coloquem um vaso de flores e velas na mesa. Assim, cria-se um ambiente aconchegante para a família, enriquecido com muito amor. Objetos que trazem harmonia e afetam o sensorial são estimulantes, pois os pequenos têm a afetividade muito influenciada pelos sentidos. O aroma, o sabor, a organização do espaço contribuem para a harmonia interior. Um espaço materialmente ordenado contribui com a formação de crianças tranquilas.

Mostramos com nossas ações e com atenção aos detalhes que as coisas que fazemos são importantes, mas que os modos como as fazemos também o são. O capricho propicia que se aprenda a respeitar os utensílios que usamos e consequentemente as pessoas que convivem conosco e que se beneficiam de um ambiente cuidado com zelo. A criança precisa perceber que outras pessoas desfrutarão do seu trabalho bem executado e que usarão também aqueles utensílios e que, por isso, cuidar das coisas é uma forma de ser atenciosa com os outros. Essa é uma atitude pequena e concreta que educa para a cidadania. Depois, quando chega a hora de sentar à mesa, existe um treino de autodomínio, boas maneiras, asseio que é pertinente a educação doméstica e é importante para o desenvolvimento como um todo.

Por fim, com chás e biscoitos à mesa, sentamos para ler poesias. Essa atividade é intelectual e culturalmente muito rica. Com os menores podemos exercitar a memorização, podemos declamar alguns poemas que já foram memorizados. Nesse ínterim a educação global continua: faz-se silêncio para respeitar quem fala, partilha-se a vez de falar. Nessa atividade educa-se a imaginação com beleza e se dá a transmissão de repertório literário. Além disso, é um exercício excelente de pré-alfabetização.

Enfim, a educação domiciliar é composta de atividades simples nas quais o ambiente de proximidade e aconchego predispõe para a confidência e a confiança e favorece o aprendizado. Nesse cenário está se desenrolando a infância de nossos filhos e essas doces lembranças ficarão permeadas de aromas, sabores, e lindas poesias com seus ritmos e sons.

A pedagogia de Charlotte Mason estimula um treino continuado nos bons hábitos. Ela aponta o exercício da concentração atenta e a busca de uma execução perfeita das atividades como o caminho para potencializar o aprendizado e as qualidades humanas.

Para vivenciar essa filosofia precisamos estabelecer um plano visando as circunstâncias concretas nas quais o treino do hábito será aplicado e depois precisamos estar atentos aos detalhes do que a criança faz.

Minha experiência com “delayed academics”

Quem observa nossas fotos de atividades pode ter a impressão de que cobrimos todas as frentes com todas as crianças. Mas na prática não é essa nossa realidade, nem é esse o objetivo.

Conforme fui avançando em meus estudos sobre educação descobri que muito se discute sobre “delayed academics”. Mas o que seria isso? É intencionalmente atrasar os estudos academicos sistematizados ou iniciar mais tarde do que se costuma fazer. Existem linhas pedagógicas e guias de Homeschooling que sustentam que academics devem ser “antes tarde do que cedo”.

Observa-se que a criança mais madura tem mais condições de fazer abstrações e compreende com facilidade conteúdos que podem ser custosos para uma criança novinha. Quando apresentamos uma tarefa muito difícil, o efeito que causamos em nossos filhos é de insegura e frustração. Já quando a criança fica além das expectativas, ela ganha ânimo para avançar. Nesse sentido, deixar algumas frentes para mais tarde pode ser muito proveitoso. Pois ela achará a tarefa simples e acabará evoluindo até o ponto de sua idade escolar rapidamente. Nessa linha, existem relatos de que as crianças não ficaram atrasadas por terem deixado conteúdos pendentes. Por exemplo, se aos 10 anos ela se deparar com um conteúdo próprio para uma criança de 8 anos, certamente achará tudo muito simples e avançará com confiança até o ponto em que encontrar dificuldade. Geralmente esse nível é equivalente ao da série que a criança estaria se tivesse sido mais exigida nas séries iniciais. Ou seja, uma luta exaustiva com uma criança imatura é desnecessária ou até mesmo prejudicial se fizer com que ela perca o desejo de estudar. Não convém abalar o amor ao conhecimento.

Diante desses argumentos fiquei muitas vezes me perguntado se tal abordagem era compatível com meus ideais educativos e se eu teria coragem de apostar nesse testemunho. Pois excelência educacional é um dos meus sonhos como mãe. Mas com o tempo aprendi a me desapegar dos resultados e focar em olhar meus filhos como um todo. Isso me fez algumas vezes perceber que quando o assunto é educação a lógica geralmente deve ser “devagar que tenho pressa”. Precisamos saber desacelerar quando sentimos que estamos indo por um caminho sofrível. Oferecemos a educação em que acreditamos, mas nossa meta é que floresçam conforme seus talentos e em seu ritmo.

Meu objetivo principal nas séries iniciais é a fluência da leitura e proficiência em matemática. Somado a isso, faço longas listas de livros de literatura, história, geografia, artes, ciências, experiências, passeios, viagens, esportes, aulas de piano, de balé, parquinho, tarefas domésticas, e muito tempo para aproveitar a infância, pois brincar é o trabalho da criança e é uma prioridade por aqui. Então como é possível fazer tanta atividade escolar? A resposta sincera é: Muita coisa acaba ficando de fora. E é por isso que acabei experimentando o delayed academics. Depois de não cumprir o planejamento de ciências do livro The Well trained mind por 5 anos consecutivos experimentei entregar para minha filha de 8 anos um livro didático de ciências de primeiro ano. Ela fez tudo sozinha, rápido, achou fácil, absorveu completamente. Conclusão? O mais importante no ensino fundamental é formar leitores competentes. Mesmo quando se escolhe alfabetizar mais tarde, não há prejuízo em ir com calma. A infância acaba rapidamente e sempre há tempo para aprender.

Geografia através dos contos!

Estou usando a literatura para envolver meus filhos nos estudos de geografia.

Quem acompanha nosso Homeschooling há algum tempo, pode lembrar que usávamos o livro “Maps”. Todas gostávamos muito da abordagem. Porém esse ano tenho trabalhado para que as crianças ganhem autonomia nos estudos, por isso escolhi materiais em língua portuguesa.

Em nosso ciclo do segundo semestre estou usando um pouco do método sugerido em simply Charlotte Mason. Estamos usando o livro “Volta ao mundo em 80 histórias” que para nós tem se revelado um livro vivo. Nele encontramos contos folclóricos de diversas partes do globo. Cada dia lemos uma história. E cada dia despertamos a atenção para um pedacinho do mundo. O objetivo com meus filhos de 4 e 5 anos é introduzir o conceito de que existem diferentes paisagens, animais e povos. Está sendo um trabalho muito agradável para todos nós. Juntamos nosso mapa mundi, nosso globo e mergulhamos na leitura.

Minhas filhas mais velhas, que hoje tem 8 e 10 anos estão concomitantemente lendo o livro “Mundo uma introdução para crianças” que é atrativo pelas ilustrações e que aborda conceitos mais elaborados de geografia. A tarefa que segue a leitura é fazer uma redação resumindo a leitura e um desenho para ilustrar o texto e deixar o caderno lindo.

Estou usando o livro “Trabalhando com Mapas” para verificar o aprendizado das crianças maiores. São questões em formato bem escolar. Há em cada página uma explicação brevíssima e atividades de fixação do conteúdo. Esse material elas conseguem usar sozinhas e estão se saindo muito bem.