Estou educando meus filhos para ganhar o mundo inteiro e perder a alma?

Quando olhamos o panorama das ideias sobre educação percebemos que tudo o que se propõe parte de algum entendimento sobre o que é o ser humano e qual o seu papel no mundo. Os pais, por sua vez, quando vão em busca de instrução para seus filhos muitas vezes estão preocupados com uma formação utilitarista que vise a formação profissional e a inserção na sociedade, e, por isso, muitas vezes não compreendem que a visão de mundo e de ser humano que muitas instituições têm pode ser incompatível com suas filosofias pessoais de vida. Não podemos cair nesse erro. De que adiantaria para nossos filhos ganhar o mundo inteiro e perder a alma?
Independentemente da linha pedagógica que se tenha comprado nas prateleiras do supermercado das tendências de formar ou reformular o ser humano, acredito que todos os pais pretendem educar um homem feliz. Mas, acredito que todas as pessoas razoáveis sabem que não existe vida cor de rosa. Nossos filhos precisarão passar por dificuldades, por problemas e por sofrimentos. Essas situações adversas são importantes para fortalecer a personalidade, então tomara que passem por contrariedade, pois o resultado de todos os esforços paternos de “poupar os filhos de passarem por tudo o que eu passei” invariavelmente é filhos adultos frágeis ou egoístas. Tudo o que passamos de dificuldade na vida é ocasião para que desenvolvamos o melhor de nos mesmos. Quando penso num plano educativo para minha família preciso pensar em que tipo de valores humanos estou transmitindo com minhas ações? Quais características estou permitindo que meus filhos desenvolvam com isso? Quais traços de caráter eu pretendo estimular que desenvolvam? Seria a sinceridade? Seria a bondade? Seria a generosidade? Que situações estou propondo para que meu filho possa exercitar essas qualidades e assim se tornar um ser humano melhor.
É fundamental que nossos filhos desenvolvam a coragem para enfrentar a vida e a sinceridade para buscar a verdade. Uma vez que quem busca a verdade busca Deus, o objetivo principal da educação deve ser instalar a criança na realidade com um senso de honestidade intelectual estimulando o amor pelo bem, pelo belo, pela verdade. Mas, como é muito fácil para o ser humano ser vítima das mentiras que conta para si mesmo criando raciocínios complicadíssimos para fugir da própria intuição, devemos ensinar nossos filhos a lutarem consigo próprios para que conquistem virtudes. Seja deixando que se confrontem com os próprios problemas, seja apontando amorosamente a verdade sobre si mesmo.

Quantidade ou Qualidade no tempo em família?

Uma das delícias da Educação domiciliar é passar tempo em quantidade com os filhos.
Escuto muito a história de que a qualidade do tempo é mais importante do que a quantidade. E isso tem lá seu fundo de verdade. Mas existe o perigo de se passar tão pouca quantidade de tempo em casa com a família que a qualidade fica comprometida também. Muitas vezes o que se faz é indulgenciar os filhos ou evitar corrigir os comportamentos inadequados, pois se sente que por passar tão pouco tempo juntos não se deve perder qualidade em conflitos. Mas, por amor aos nossos filhos, não podemos nos esquivar da correção e torcer para que eles se eduquem sozinhos. Precisamos atuar.
Os efeitos disso na educação dos filhos são agravados porque os demais cuidadores da crianças não tem autoridade para fazer o que é trabalho dos pais. O resultado é que a educação fica muito aquém da que seria se a mãe fosse mais presente.
Tempo de qualidade não quer dizer necessariamente tempo de prazer. Passar tempo de qualidade com os filhos, no meu entendimento, é estar com os filhos prestando atenção neles, interagindo com eles e buscando suprir suas necessidades reais. Para saber exatamente o que cada criança necessita, para ensinar o modo apropriado de se comportar, para auxilia-los a entender seus sentimentos, para poder aproveitar alguma atividade juntos, é necessário conhecer seu filho. E para isso é fundamental uma significativa quantidade de tempo.
Para a Criança a quantidade de tempo empreendida ao lado dos pais é sempre boa. Mesmo sem qualidade, a simples quantidade de tempo juntos é positiva. A criança é educada pelo exemplo. Se queremos que nossos filhos tenham os nossos valores não basta vê-los meia horinha no final do dia na frente da televisão. Quanto mais eles nos observarem mais aprenderão. Eles não necessitam ser o centro de nossa atenção o tempo todos. Mas é bom que eles estejam por perto. Além disso, essa proximidade física é condição para a proximidade psicológica. Precisamos gastar tempo para construir vínculos.
É evidente que cada família é única. Que as circunstâncias particulares diferem e que não dá para aplicar regras gerais. Mas as mães deveriam se perguntar: o espaço que o trabalho ocupa em minha vida é adequado para minha realidade? Dentro de minhas possibilidades de vida há equilíbrio entre meu trabalho e minha vida familiar? Há como eu estar mais próxima?
Uma vez que a coisa mais importantes que podemos e devemos dar aos nossos filhos não custam dinheiro – valores, exemplos, educação moral, senso transcendente da vida, amor, carinho, ou seja, precisamos dar o nosso tempo, precisamos dar a nós mesmos – porque não nos perguntamos se com uma estilo de vida mais modesto não conseguimos encontrar mais tempo?
Sem encontrar tempo para os filhos, nossa história de vida passa a ser: quando finalmente tivermos dinheiro suficiente para nos dar ao luxo de ter tempo para nossos filhos são eles que não terão tempo para nós. 

É coragem ter muitos filhos?

Imagine a seguinte cena: uma pessoa com os olhos arregalados, tomada por espanto e divertimento dizendo “CINCO?!”. Essa é a reação universal das pessoas quando respondo a pergunta “é seu primeiro filho?”. Depois de exclamar alguma variedade de “que coragem!”, “que loucura” ou “que irresponsabilidade” me perguntam “como você consegue?”. A realidade é que ter cinco filhos não é como se imagina. Sim, eu consigo. E acho que a história humana prova que eu não sou nenhuma super mulher por isso.
Parece-me que as pessoas se surpreendem tanto com a vida que nós levamos porque imaginam a própria rotina e a própria vida e colocam imaginativamente nela mais crianças e isso lhes parece o caos. Mas na realidade percebo que muitas vezes meus 5 filhos dão menos trabalho do que uma única criança de algumas famílias que se surpreendem por termos tantos filhos. 
Sim, nós conseguimos. Nós não temos cinco babás; eu não passo o dia todo no tanque lavando roupa, nem na cozinha; nosso dinheiro não dá em árvore; sobra tempo para eu fazer as minhas coisas pessoais; eu e meu marido conseguimos conversar e dar uma atenção um para o outro e fazer todas as refeições juntos em família. Levamos elas para fazer compras conosco, para passear, conseguimos dar atenção exclusiva para cada uma.
A pergunta que se segue é “você não trabalha, né?” De fato o trabalho profissional não é a minha prioridade. Aqui é a deixa para muitas mulheres admitirem que gostariam de ter muitos filhos, mas que para elas é impossível porque precisam trabalhar. Acredite, uma família numerosa não necessariamente inviabiliza o trabalho profissional fora de casa. Conheço algumas mães de famílias ainda maiores do que a minha que trabalham fora de casa. Acontece que EU optei por assumir pessoalmente a educação integral de meus filhos e com isso minha vida profissional ficou relegada a um segundo plano.
Existem muitas formas diferentes de se viver, mas vivemos no país do consenso. Em nossa sociedade o esperado é que todos vivam ordeiramente fazendo o que todo mundo faz. É como se outros modos de vida fossem realmente impossíveis. Acredito que temos um grave problema de imaginação. Objetivamente não é preciso coragem para ter muitos filhos. É preciso coragem para ir contra o consenso.
Evidentemente escolher é renunciar. Percebo que as pessoas realmente não fazem ideia das delícias de se ter uma família numerosa, mas de antemão renunciaram a ela por se sentirem obrigadas a fazer as coisas como a maioria das pessoas fazem.
Qualquer pessoa que tenha um filho sabe que a vida material e a rotina mudam radicalmente com a chegada dele, mas também sabe que o amor por essa pessoa é a mais maravilhosa dessas mudanças e preenche a vida de sentido. Quem no mundo voltaria no tempo e quereria não ter esse amor para ter mais conforto, mais tempo livre ou mais dinheiro? A lógica é bem simples. Amor não se divide. Mais filhos, mais amor. Uma família maior equivale a mais pessoas que se amam e se importam umas com as outras.
Imaginar que uma família maior é apenas uma conta maior no final do mês e um amontoado de funções a mais é semelhante a imaginar que ao casar se somará todas as atribuições que se tinha na casa paterna às novas que se tem na do casal. Não é assim.
Conforme a nossa família foi crescendo todos aprenderam amorosamente a ter autonomia, a cuidar de si mesmo, e, melhor ainda, a cuidar uns dos outros. Todos aprendem a partilhar e a colaborar. Ou seja, o trabalho que recai sobre os pais não cresce na proporção que nascem os filhos, pois o trabalho que os irmãos geram vai diminuindo na medida em que eles se tornam colaboradores. As despesas que mais um filho gera não são necessariamente multiplicadas, porque muito se aproveita do que já foi adquirido para os primeiros. Se os primeiros filhos perdem a exclusividade, ganham em amor. Se perdem em quantidade de bens materiais, ganham na quantidade de bens imateriais.
Todos tendem a pensar que a criança deve sofrer porque não tem o pai e a mãe só para si, ou porque não tem todos os brinquedos que vêem nas lojas. A realidade é que qualquer pequena dificuldade que se tenha não causa um sofrimento maior do que o da criança filha única que nunca está com os pais porque eles lutam tanto para dar coisas para ela que nunca têm tempo para estar com ela. Ou o pequeno sofrimento da criança solitária que pede irmãozinhos para os pais.
Penso que pessoas valem mais do que coisas. Por isso acredito que pequenos ciúmes ou pequenas privações materiais são educativas e que tornam nossos filhos seres humanos melhores. Pequenas privações ajudam a desprender o coração das coisas e nos ensinam que não somos o centro do universo. Agora, aqueles que pensam que devemos sacrificar relações em nome de coisas, que pessoas não devem existir para que outras pessoas tenham mais coisas, nem imaginam as delícias de uma família numerosa.