Como é possível passar todo o tempo com os filhos?

Acho interessante que de todas as possíveis dúvidas que se pode ter sobre educação domiciliar a mais comum seja “como é possível suportar passar o tempo todo com os filhos?” Já ouvi até que isso é impossível. Embora eu compreenda a dificuldade que isso representa na psique da mulher moderna, acho curioso que a tarefa simples, e que acompanhou as mulheres desde que existe humanidade, possa ser vista hoje como um bicho de sete cabeças.

Como muitos amigos perguntam se o estilo de vida homechooler é difícil, resolvi compartilhar um pouco de minha trajetória como mãe educadora. Para quem já experimentou a terceirização da educação dos filhos, o começo da escolarização em casa é um processo de desacomodação e reacomodação de todos. Até encontrar um equilíbrio em nossa vida tivemos que passar por uma série de tentativas e erros. Agora seguimos com muitas aventuras, com os rumos definidos, com muita tranquilidade, e com confiança no que estamos fazendo.

Uma das grandes dificuldades da adaptação não foi o trabalho que as crianças geram, foi abandonar um modo de vida autocentrado e me dedicar as necessidades de terceiros. Com isso eu pude perceber que ainda tinha – e tenho – muito que amadurecer.

É um desafio passar tanto tempo com os filhos. Com essa tarefa acabamos desenvolvendo a paciência, a resiliência, a fortaleza. Mas é principalmente uma fonte de muitas alegrias. De tudo isso só tenho o arrependimento de não ter começado antes.

Esse é um desafio bom. Ele fortalece e dá satisfação do dever cumprido. A maior dificuldade é enfrentar a cada dia as agruras de se ser quem se é, ou seja, é preciso procurar dia a dia ser alguém melhor, agir com mais amor, com mais coerência e integridade.

A primeira limitação de minha personalidade que tive que enfrentar foi a falta de paciência. Sempre soube que meu pavio é curto. Antes, o fato de que elas sairiam de perto de mim e que eu teria um tempo de sossego para gastar com as minhas coisas – ainda que fossem muitas vezes coisas chatas, penosas, ou obrigações de outro gênero – era o que me permitia relevar comportamentos irritantes e procrastinar com as tarefas de corrigir os problemas, de enfrentar as dificuldades, de educá-las e de orientá-las. Talvez por isso eu e tantas mães festejávamos o primeiro dia de aula.

Educação em casa não é assim. Aprecia-se na maior parte do tempo outro tipo de sossego. Um sossego com as crianças por perto. Um sossego com sons e trabalho.

Se uma criança está fazendo bagunça e isso nos incomoda nós queremos que o nosso desconforto cesse. Mas a realidade é que muitas vezes aquela bagunça não é inadequada, a bagunça que eles fazem ao tentar fazer as coisas por si mesmas, por exemplo, não é má.

Precisamos ensiná-los a fazer as coisas, ensiná-los a limpar a própria sujeira, a guardar os próprios brinquedos, a expressar os sentimentos de modo adequado. Mas isso envolve tempo e dá trabalho. Nesse tempo precisamos aprender a suportar muitas coisas, ou seja, é preciso desenvolver a virtude da paciência.

Hoje, quando vejo pequenos resultados de eu ter conseguido dominar a mim mesma e ter aceitado amorosamente as pequenas contrariedades e perseverado em assumir as rédeas desse trabalho urgente, e que na prática consiste em um somatório de pequenas generosidades, sinto uma grande satisfação. Como se meu coração tivesse se alargado e com ele minha capacidade de amar. Entendi que educar é educar nas pequenas coisas. Educar é se educar também.

Filhas, muito obrigada pelos desafios que vocês me levaram a enfrentar, vocês foram instrumentos que possibilitaram fazer de mim uma pessoa melhor.

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