A maturidade na maternidade

Maternidade, para quem vive com os olhos no transcendente, é um caminho de santidade. Livremente acolhemos outra vida em nossos corpos, e provamos a dor e a realização por ter em nossas entranhas um milagre. Depois, livremente gastando nossos dias nutrindo e amando uma pessoa que é um pouco parte do que somos, e, na contra partida, é integralmente outra pessoa. Vivemos com naturalidade em nossos dias obras que podemos realizar com os olhos na eternidade. Mães de filhos pequenos diariamente vestem os nus, dão comida a quem tem fome, dão de beber a quem tem sede, dão conselho, cuidamos dos enfermos com todo o coração, ensinamos os ignorantes, corrigimos os que erram, consolamos os tristes. São obras de misericórdia preciosas que não podemos desperdiçar. E Nosso Senhor diz que “TUDO QUE FIZESTES A UM DESSES PEQUENINOS, É A MIM (JESUS) QUE FIZESTES”. Não são poucas as oportunidades que nossos filhos nos dão para servir Nosso Senhor. É uma delicadeza de Nosso Pai podermos amá-Lo nos filhos que já somos inclinados a amar naturalmente. Maternidade é também um caminho de maturidade. Algumas vezes estamos enfraquecidas, aborrecidas, frágeis, mas o bebê, que, por óbvio não entende de nossos anseios, chora a noite toda. Reclamar? Não somos afinal responsáveis por nossos padecimentos ao ter escolhido ter um filho? Quem mandou ter filho? Filhos são monstros devoradores de sonho… Dirão as childfree. É claro que o filho é muitíssimo mais do que um sofrimento passageiro de uma noite sem dormir. A alegria e a felicidade perene que encontramos na existência de uma pessoa, uma companheira para eternidade,é incompreensível pelas lentes com que enxerga o mundo quem não compreende que amor é dor as vezes. Daí você percebe que de fato não precisa reclamar, fazem parte da vida natural essas contrariedades, não ter filhos para não se gastar no trabalho que dão é se manter a uma distância prudente da felicidade de quem está desprendido de si mesmo. Isso é incompreensível ao egoísta. Se você passa por isso um bom número de vezes, o ímpeto de reclamar acaba diminuindo. Afinal, você saberá que as contrariedades passarão, que são coisas da vida, que escolhas de altruistas são incompreensíveis para o senso comum. Saberá que há um tesouro nessas contrariedades que te trarão a alegria do dever cumprido. Quem busca desesperadamente o conforto e alegria não tem resistência para a frustração e se fere com intensidade por banalidades. A vida é composta por alegria e dor e isso está completamente fora de nosso controle. Nossa liberdade está em sofrer com dignidade, em dar sentido transcendente para o que nos acontece, em ter paciência quando tudo está amargo, sabendo que nossos sentimentos mudarão e poderemos nos alegrar diante das mais simples e cotidianas bobeirinhas, ou chorar em circunstâncias exteriormente perfeitas. Para amadurecer é preciso aceitar a vida e o que ela tem para nós com um coração grato e disposto a trabalhar no cenário que vier. Filhos proporcionam lições que muitas vezes doem, mas que fazem de nós pessoas melhores.

Mãe no século XXI

Entre nós mães católicas, mães educadoras, mães que leem, existe uma certa nostalgia com o passado. Um tempo onde os valores, a cultura, os costumes eram outros e eram bons. Há tantos tesouros em nossa tradição que hoje são vistos com desconfiança pela cultura moderna que acabamos saudosistas. Recentemente ouvi de uma amiga querida que o esposo dela gosta muito de mim, mas que se preocupa de que ela só se influencie pelas coisas boas e não pela abertura a vida que é algo medieval aos olhos dele. Tomara que ele esteja certo e que nosso Senhor cubra meus defeitos e que minhas amigas aproveitem de mim só o que possa edificar sua família. Mas não é por romantismo de um passado imaginário que somos abertos a vida. Esse é um valor atemporal que se tornou tão estranho em nossos dias que parece coisa antiga, mas não é. E, na verdade, ainda que eu suspire com a arte, a música, a literatura clássica, eu sou uma mulher do século XXI e sou uma mãe do século XXI muito bem resolvida com o tempo e o lugar em que Papai do céu escolheu para mim.

Estudando com as meninas sobre as cruzadas aprendemos que na idade média banho era a cada seis meses! Ficamos todos gratos pelos tempos em que vivemos. Existem tantas coisas boas nas modernidades. Tenho tantas e boas amigas virtuais, faço cursos online, escuto meditações, compro na internet, acho o Google um aliado no homeschool. Não imagino o que seria de mim sem minha lava louça, lava roupa. Como viviam antes dos tecidos que não precisam ser passados?! Faz uns tempos tive que dirigir uma kombi 89 por uns meses e concluí que a modernização dos carros é uma dádiva para as mães. Isso sem falar dos antibióticos, da anestesia, óculos, o que seria de mim sem os avanços nas técnicas de parto cirúrgico?!

O mundo em que vivemos é bom! Cada época tem seus desafios, suas alegrias. O verdadeiro campo de batalha é o coração dos homens, pois existem coisas que são usadas de modo mau. Mas o pecado está na alma dos homens, não nas coisas. Cabe a nós homens de nosso tempo dar a essa cultura o tom de nobreza moral que imaginamos no passado. Podemos elevar nosso meio e formar consciências em conformidade com valores atemporais. Mas não é com saudosismos que resgataremos o que se perdeu. É vivendo com fidelidade e coerência nossa vocação cristã nesse tempo do WhatsApp. Afinal, Deus não nos abandonou.

Nesse sentido, senpre tenho em mente que meus filhos são crianças do século XXI. São pessoas confiadas a mim para serem educadas, mas que me devem obediência somente até os 18 anos. Depois disso estarão totalmente livres nesse mundo atual para fazer as próprias escolhas. O adulto forte e íntegro que eu sonho ver não florescerá no século XII, estará andando nessa rua, vendo esta arquitetura, comendo essa comida e navegando nessa Internet. Por isso, acredito na educação para a liberdade.

Prefiro ser intransigente com o que é mau do que impor os meus gostos e preferências a torto e a direito. Penso que gradualmente eles precisam ganhar a liberdade conforme se dá o amadurecimento de seus critérios. Não convém ser intransigente com o que é moralmente mau com a mesma intensidade do que com o que é opinável. O fundamental, por exemplo, é educar sobre a modéstia e a dignidade da mulher. Importa que carreguem esse valor pela vida, não importa com quais acessórios viverão esse valor. É claro que eu prefiro que todos gostem do que eu gosto. Mas eles são diferentes de mim em tanto – e melhores do que eu em muito. Respeitar a liberdade dos filhos é um exercício muitas vezes difícil, mas importante.

Semana Santa, a cada ano uma lição

A cada ano a quaresma trás alguma tensão em meu coração, que vai se agravando, até a chegada da Semana Santa quando algum aspecto da história da salvação ganha uma nova luz para mim. Percebo que é preciso voltar muitas vezes ao pé da cruz e pedir ao Senhor que eu veja o que minha alma precisa. E a cada ano me é oferecida uma oportunidade de crescer de fé em fé, de amor em Amor.

Álvaro nasceu no primeiro dia da quaresma no ano passado, foram quarenta dias intensos. Quando chegou a Sexta-feira Santa e a memória da paixão, eu ainda sentia dores do pós parto. A cada passo da história, a dor de Cristo me doía. Eu que sofria por ter amado – mas sofria mal – imaginava e me comovia com a loucura de amor de nosso Senhor, minha carne podia entrever o que poderia ter sido o “esse é o meu corpo que será entregue por vós”. Nunca saberei ao certo o quanto sofreu Cristo, mas eu aprendia por meio de minha dores, a agradecer o Amor com que me amou o Senhor.

No ano anterior, nesses dias eu acompanhava Leonelzinho na fisioterapia. Meu bebezinho chorava a cada minuto e eu sabia o quanto aqueles instantes de desconforto eram importantes. Não podia acalentar nem impedir, e me partia o coração vê-lo sofrendo diante de meus olhos. Na semana da paixão, estar com Nossa Senhora transformou meu coração. Como pode uma mãe suportar tal dor? Como poderia ser minha mãe também tendo eu colocado tantos espinhos naquela coroa? Aquela semana santa me amadureceu o amor pela Santíssima virgem Maria.

Outra vez, vivi dias em que não aceitei bem os dissabores naturais da vida, estava frustrada, braba com Deus que não faz a minha vontade mesquinha. Ouvi os evangelhos sobre o povo que dizia hosana num dia e no outro gritava “crucifica-o” e entendi que minha alma estava respresentada ali. Como não se render diante de tal Amor que morreu por mim? Que alegria perceber que somos pecadores e indignos do Amor recebido.

Nesse ano, vivi uma quaresma marcada pela angústia do parto que virá, antecipando na imaginação os meses dolorosos pós cirurgia. Meu coração se rebela e a ansiedade me tira do amor presente e me coloca no egoísmo vitimista. Nesse ano a meditação da semana santa me permitiu estar melhor com Cristo na agonia depois da última ceia. A antecipação, a angústia, a aceitação, o amor.

Que alegria imaginar que a cada ano temos um tempo para recordar o quanto somos amados. Um tempo para recordar que somos cuidados pelo Todo poderoso. Um tempo para conversão e alegria. Oh Cristo – dizemos com o Santo Padre João Paulo II –, como não te dar graças pelo dom inefável que nos ofereces nesta noite! O mistério da tua Morte e da tua Ressurreição infunde-se na água batismal que acolhe o homem velho e carnal, e o faz puro, com a mesma juventude divina.

Dias de homeschool para minhas filhas de 4 e 5 anos

Estamos novamente em tempo de planejamento. Por isso vim partilhar uma rotina de estudos que foi muito funcional para minhas filhas de 4 e de 5 anos. Em vários momentos do ano tive que me reorganizar ou mudar a sequência das tarefas no dia, os livros, abandonei atividades que exigem muita preparação prévia e adotei a simplicidade como regra geral. O saldo final foi que conseguimos atingir boas conquistas, aprender muito, sem perder a leveza dos dias, nem causar uma sobrecarga cognitiva. Andamos com passos de formiguinha, respeitando a maturidade e as necessidades delas. Nossa meta era conquistar a leitura. E nos últimos momentos de novembro testemunhei o interesse e o encanto pelo mundo das letrinhas. Terminamos o ano com duas filhas lendo, mas sem concluir nenhum dos livros que escolhi. Quanto a isso, não há melindres, pois educar é muito mais do que preencher páginas de livros. Em meados de Janeiro retomarei essa mesma sequência de atividades. Mas afinal, como foi esse ano de estudos de minhas filhas em idade de kindergarten?

Começamos os dias, depois de oração, higiene, café, e arrumar as caminhas com uma Caminhada na natureza. Isso contribui para aumentar a concentração nas atividades intelectuais posteriores. Para quem está em busca de livros e métodos pode parecer desinteressante, mas essa é uma escolha pedagógica e faz parte de meu planejamento. Sigo o Homeschooling da pepper&pine e me inspirei nesse modelo rico em beleza e na educação da sensibilidade. É um modelo de educação domiciliar muito diferente do que escolhi nos primeiros anos. Hoje conseguimos mais paz sem perder a qualidade aderindo a algumas das ideias dela.

Depois do parque e de comer uma frutinha, fazemos kumon. Esse ano dividi a carga terceirizando algumas atividades com o Kumon. Por aqui, tivemos mudança de casa, chegada de bebês, alguns problemas de saúde. Achei muito positivo encontrar um parceiro que me ajuda a manter a rotina. Minhas filhas fizeram português e matemática. Além de a simplicidade e a constância do método terem me auxiliado a manter a disciplina dos dias, percebi nas crianças o desenvolvimento de virtudes importantes para Charlotte Mason – concentração, atenção e realizar o melhor esforço. Todos os outros momentos de estudos foram mais bem aproveitados em virtude dessa característica que o Kumon ajudou a aflorar. (Filha melancólica gosta da previsibilidade e da sensação de dever cumprido; filha colérica gosta das premiações e das medalhas; a filha sanguínea não gosta, mas cresceu tanto em concentração que percebo que foi a que mais se beneficiou.)

Passados os vinte minutos de kumon, vamos para a Alfabetização. Eu gosto do material “Professora de papel”. Vou adaptando o nível de dificuldade dos exercícios, pois o livro foi pensado para crianças mais velhas. Em alguns dias substituo essa tarefa pelas do livro “Alfabetização fônica” do Capovilla. Sempre uma página por dia. Depois fazemos 2 páginas do livro “Mathematics” da Seton Press. Cada dia fazemos também uma Planilha Carlos Nadalin. Terminamos com leitura que elas fazem para mim de um livrinho curto – mini livros do IAB ou da coleção Estrelinha, por exemplo. Só isso. Simples, rápido e eficaz.

Então, chega a hora de ajudar a fazer almoço! São tarefas delas: lavar salada, descascar abobrinha, colocar o arroz na panela, ajudar a pôr a mesa. Isso sem esquecer do Angelus e da benção dos alimentos. Todas são tarefas de inspiração montessoriana. Todas importantes. Adquirem bons hábitos tendo em vista que educação é uma atmosfera, uma disciplina.

Depois do almoço fazemos mais um momento educativo: a hora da roda. Cantiga de roda, declamamos poesia, aprendemos uma breve oração, fazemos exercício de lateralidade. Me inspirei no livro “Criança Querida”. Para minha surpresa é um modo tranquilo e suave de fazer atividades de pré-alfabetização que antes eu tentava propor em forma de jogos, mas que eram difíceis de implementar na minha rotina. Eu preciso de repetições e ritmo em meus dias. Se eu precisar bolar uma aula diferente para cada dia fico paralisada. Esse formato que repete músicas, histórias, versos e brincadeiras é mais amigável para mim e elas preferiram. Esse é o momento mais alegre do dia. Depois, sentamos e passamos alguns flash cards. Aprendi que intercalar atividades de movimento com atividades de concentração funciona bem e respeita a tempo da criança. Esse ano trabalhei flash cards das letras associadas com seus sons. Terminamos a roda marcando a data em nosso calendário e decorando dias da semana, meses do ano.

Daí é a hora do Clube do tapete. Eu trabalhei num formato análogo ao do Clube. Usei as dicas Simplycharlottemason.com, mas percebi que o clube é uma alternativa maravilhosa. Essa atividade é pura alegria: apreciação artística, musical, poesia, leitura em voz alta, bíblia. Estudamos Beethoven, decoramos o hino nacional. Apreciamos Weermer, lemos as histórias do antigo testamento, contos de Fadas e as poesias infantis de Olavo Bilac. Além de livros lindos, rimados ou divertidos próprios para crianças pequenas.

É justamente aqui que acrescento livro relacionados a alguma disciplina. Geografia é através dos contos dos diferentes povos com mapa mundi na mão. Ciências trabalhei com a série o Ônibus Mágico. História usei livros como o “Como seria sua vida no Egito antigo?”, “Criança na história” . Não dá para esquecer de pedir para a criança recontar a história depois que ouviu. Esse é o exercício de narração! Parece muita coisa? Em menos de uma hora percorremos essa riqueza de lições curtas.

Hora de ajudar a cuidar da roupa do varal, ou de parear meias, ou de ajudar a colocar a roupa na máquina. Nos dias de sol são encargos muito divertidos!

Nossa última parada no planejamento são os projetos da tarde. São muito bons, mas não crio caso quando não consigo fazer. Afinal, tem dias em que manter as crianças vivas já é um grande feito. Mas que alegria quando conseguimos!

Segunda é dia de parque. E nesse dia fazemos o diário da Natureza. Paramos um instante para registrar num caderno nossas observações sobre o espaço natural e sua mudanças semanais. Fazemos desenhos do que vimos e breve notas.

Terça é dia de Aquarela, artesanato, ou desenho.

Quarta é dia da argila, da massinha ou de fazer pão.

Quinta é dia de catequese inspirada na método Bom pastor, (muitas das vezes, nesse dia, não conseguimos fazer a catequese) ou fazemos um projeto de ciências.

Sexta é dia de encontro com os amigos de homeschool.

Pausa para brincar e lanchar.

Duas tardes na semana elas fazem balé,

duas tardes encontramos amigos.

Mas quase sempre terminamos o dia com Brincadeira ao ar livre no quintal e elas se sujam muito de areia.

Daí é banho e jantar. As vezes assistem um filminho. Terminamos os dias com 3 ave Marias e um santo anjo.

Cada família tem um estilo de homeschool, talvez alguma das minhas escolhas aqui não seja interessante para ninguém além de mim, o objetivo é dar ideias para quem está procurando renovar os ares com a chegada do novo ano. Afinal encontrar um formato que atenda as particularidades de cada família é o desafio que nunca termina, todo ano ajustamos um pouco.

Meu filho não gosta de estudar. E agora?

Assista no YouTube esse conteúdo.

Muitas mães me perguntam como ensinar os filhos a gostarem de estudar. Essa nem sempre é uma tarefa fácil e não há um segredo certeiro para o sucesso.

Algumas crianças gostam, outras nem tanto. Eu procuro trazer atividades divertidas para fazermos juntas. Eu gosto de atividades nas quais precisamos pôr a mão na massa, gosto de encontrar músicas e poesias relacionadas aos temas que estudamos, não resisto a passeios pedagógicos, e sou apaixonada por livros lindos. Mas nem sempre os nossos dias de estudo são vivos e cheios de aventuras. Em alguns momentos estudar é simplesmente chato. A ideia de que o ensino precisa ser uma atividade prazeirosa é enganosa. Nem sempre o estudo será agradável. Longas divisões, atividades repetitivas, refazer uma tarefa quando não atingiu o objetivo, podem ser situações muito frustrantes. Aceitar o chato, o tédio, o difícil é fundamental para o amadurecimento da criança. O trabalho intelectual exigente não pode ser inimigo. Quando ajudamos nossos filhos a suportarem essas contrariedades eles se tornam mais fortes. E a satisfação de cumprir o dever e de vencer o desafio farão parte do repertório de vida deles. Precisamos ter em mente que nosso papel é educar para que encontrem satisfação também em coisas que não são divertidas. Uma criança que não gosta de estudar, mas que estuda mesmo assim, pode aprender a gostar. E certamente terá aprendido o domínio de si para fazer algo sem sentir prazer. Isso é libertador. É uma necessidade na vida adulta e uma ferramenta fundamental em todos os âmbitos da vida.

É claro que o estudo não pode ser uma tarefa odiosa. Precisamos estar atentos ao nível de dificuldade e ao método. Quando a criança detesta estudar precisamos prestar atenção no nível de dificuldade. É necessário encontrar um equilíbrio. Se as atividades são muito fáceis, pode ser entediante, se é muito difícil é desmotivador. Pais atentos percebem quando o método não está sendo eficaz. E mudar o caminho é uma aposta interessante. Existem livros e abordagens que funcionam muito bem para algumas pessoas e para outras não.
Além disso, nossa postura afeta a percepção deles. Eles procuram em nosso comportamento os referenciais para o próprio comportamento. Precisamos também gostar de estudar. Em nossas famílias e em nosso convívio social as conversas precisam ir além de trivialidades e fofocas. Um ambiente onde eles possam respirar ideias nobres para ruminar interiormente é alimento para o intelecto. Ouvir sobre o que nós estamos lendo faz com que o universo dos livros faça parte do modelo de vida adulta e naturalmente eles se inclinarão para eles. Não podemos dar aquilo que não temos. Vamos com otimismo alimentar nossa convivência com cultura e contar muitas histórias sobre vidas de pessoas grandiosas que produziram esse conhecimento que estamos transmitindo e eles terão fome de histórias. Essas são lembranças que marcam o coração deles. Partilhar cultura se torna especial porque eles têm um carinho espontâneo pelo que fazemos alegremente juntos.
Além disso, tenha paciência. Minhas primeiras filhas sempre gostaram de fazer atividades escolares, as mais novas demoraram um pouco mais para criar o gosto. Com um trabalho constante de leitura, a despeito de não demonstrarem interesse, minhas filhas mais novas se apaixonaram pela leitura. Mas veremos ainda os desafios que os meninos me trarão.

Porque faço homeschool?

Homeschool é um estilo de vida no qual a família vive comprometida com a educação integral dos filhos o tempo todo. Esse é o modelo que combina com minha família.

Desde 2013, quando abraçamos o homeschool, passamos a viver em um ritmo de vida mais calmo. Mesmo com muitos afazeres estamos desprendidos da correria do mundo moderno. Podemos parar e conversar olhando no olho. Podemos fazer pausas para recuperar o fôlego, podemos cozinhar e desfrutar do aroma e sentar para as refeições sem pressa.

Procuramos oferecer estudos sob medida para cada um. Eles andam em seu ritmo. Alguns avançam anos a frente do que estariam aprendendo na escola, outros se demoram reforçando o que é difícil. Como avançar nessa medida no ensino de massa?

Priorizamos um modo de socialização sadia na qual eles se tornam respeitosos, autoconfiantes, tranquilos, responsáveis. Isso não impede que encontrem desafios e conflitos. Sempre existem desafios. Mas convivem de modo natural com o mundo ao seu redor, com os vizinhos, parentes, com professores e colegas nas atividades extra-classe, com meus amigos e com os filhos de meus amigos, com o grupo de apoio de educação domiciliar.

Além disso, concordamos com a neurociência quando diz que a qualidade do aprendizado depende principalmente da qualidade do relacionamento entre a criança e o educador. No relacionamento familiar esse vínculo existe naturalmente. Em casa aprendemos a servir, a ter autonomia, disciplina, seriedade e serenidade. Não é uma educação para estar fechado em si mesmo. É uma vida de aprendizado sobre amor ao próximo. Sobre Deus se alegrar quando fazemos o bem.

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Nunca fui contra escola. Mas quando me tornei mãe intui que educação vai muito além do que o que a escola pode oferecer. É um dever e um direito dos pais. Aprendi que a escola deve ser uma parceira da família no que se refere à educação intelectual. Porém junto com o intelectual vem um pacote. A criança recebe um ambiente afetivo, convivência, uma visão de mundo, um estilo de socialização, um formato de aprendizagem. Por isso, escolher a escola é uma tarefa muito séria. E acompanhar o que acontece lá é fundamental.

E o que fazer quando algum desses aspectos não atende as necessidades da criança? Quando a socialização não é boa? Quando a criança não aprende? Quando seu filho aprende conteúdos defasados? Quando aprende a desprezar os valores dos pais? Não existe uma resposta única para isso, cada família encontra a sua. Porém vivemos num país em que muito se reclama do sistema de ensino falido. Mas pouco se faz além de considerar esse lastimável dado como algo que precisamos simplesmente aceitar. Afinal o que os pais podem fazer? Não podemos reconstruir o sistema, mas podemos assumir a educação daqueles que são nossa responsabilidade.

Quando coloquei meus filhos na educação infantil me deparei com as dificuldades do sistema de ensino. Escolhi uma escola ótima que foi uma parceria excelente. Tudo o que aprendi lá sobre educação permitiu que eu descobrisse o homeschooling e me apaixonasse pela ideia. Por acreditar que poderia ser isso o melhor para nossa família, reunimos ânimo para ir contra o consenso. Nossa experiência educacional sempre foi muito serena, pois a escola é sempre uma possibilidade ao alcance da mão. Mas até hoje seguimos confiantes em nossa decisão de prover pessoalmente a educação das crianças

Chá com poesia

Quando pensamos em uma boa educação, precisamos pensar em atuar com intencionalidade. Ou seja, podemos escolher nossas ações tendo em vista  o que queremos estimular  em nossos  filhos e oferecer  situações concretas para que eles exercitem bons hábitos.  Esses serão fundamentais na aquisição das virtudes e no fortalecimento da personalidade.

 

Pais que se dão ao trabalho de estabelecer os padrões de comportamento e encaminhar a criança de modo a vivenciar o que é bom, terão dias mais tranquilos, desfrutarão melhor da convivência familiar e deixarão para seus filhos um tesouro. Pois quem tem um bom hábito é livre para aplicá-lo ou não, quem não estabeleceu um bom hábito precisa de um grande esforço e domínio de si para conquistá-lo. Ou é consumido por vícios que dominam sua liberdade de decisão.

A educação domiciliar permite que os pais promovam atividades educativas visando a formação global da personalidade. Estamos preocupados com uma sólida formação intelectual, mas não perdemos de vista que a formação socio-afetiva, moral, transcendente, volitiva, física, sensorial e do caráter fazem parte da pessoa e precisam de encaminhamento. Todos esses âmbitos, que se intercomunicam na vida real são educados em situações pontuais e corriqueiras.  Portanto não educamos só quando queremos. Educamos com o que somos, com nossa conduta, com o ambiente de nossas casas. Precisamos algumas vezes aproveitar oportunidades educativas e outras vez criar eventos como um chá com poesia.


O “Chás com Poesia”, inspirado no trabalho de Julie Bogart, é uma prática que tem conquistado mães que educam em casa em todo o mundo. Trata-se simplesmente de leitura ou de declamação de poesia previamente decoradas à mesa durante um chá com guloseimas. A vivência dessa atividade é ocasião para que se eduque em múltiplos aspectos.

Primeiro, podemos envolver a criança no preparo dos biscoitos e do chá que serão servidos. Cozinhar em casa é uma atividade sensorial muito rica e uma oportunidade de aprender matemática na prática. Ao fazer biscoitos a criança desenvolve a coordenação, trabalha medidas, contagem e modelagem. Para isso, é preciso tomar algumas precauções de segurança e preparar previamente o espaço da cozinha além do ânimo, com uma dose extra de paciência, pois crianças podem fazer uma certa bagunça. Se mostrarmos passo a passo e em silêncio o que esperamos que façam, elas se esforçarão para repetir o que viram dentro de suas possibilidades. Essa é a ocasião para animá-las a exercitar a concentração e o capricho. Terminada a feitura das guloseimas, podemos ensinar que ordenem os utensílios e que cuidem dos detalhes para que o ambiente fique como foi encontrado no início. A repetição desse tipo de exigência carinhosa é benéfica para todos que ganharão com a capacidade de gerir e respeitar o espaço.

A preparação da mesa para o Chá com Poesia também é uma oportunidade educativa. A criança pode, por exemplo, treinar como carregar uma bandeja. Essa atividade simples exige coordenação e atenção e é um treino de vida prática montessoriano desafiador para crianças pequenas. Ensinamos a alegria no cuidado com os detalhes, por exemplo, ao sugerir que coloquem um vaso de flores e velas na mesa. Assim, cria-se um ambiente aconchegante para a família, enriquecido com muito amor. Objetos que trazem harmonia e afetam o sensorial são estimulantes, pois os pequenos têm a afetividade muito influenciada pelos sentidos. O aroma, o sabor, a organização do espaço contribuem para a harmonia interior. Um espaço materialmente ordenado contribui com a formação de crianças tranquilas.

Mostramos com nossas ações e com atenção aos detalhes que as coisas que fazemos são importantes, mas que os modos como as fazemos também o são. O capricho propicia que se aprenda a respeitar os utensílios que usamos e consequentemente as pessoas que convivem conosco e que se beneficiam de um ambiente cuidado com zelo. A criança precisa perceber que outras pessoas desfrutarão do seu trabalho bem executado e que usarão também aqueles utensílios e que, por isso, cuidar das coisas é uma forma de ser atenciosa com os outros. Essa é uma atitude pequena e concreta que educa para a cidadania. Depois, quando chega a hora de sentar à mesa, existe um treino de autodomínio, boas maneiras, asseio que é pertinente a educação doméstica e é importante para o desenvolvimento como um todo.

Por fim, com chás e biscoitos à mesa, sentamos para ler poesias. Essa atividade é intelectual e culturalmente muito rica. Com os menores podemos exercitar a memorização, podemos declamar alguns poemas que já foram memorizados. Nesse ínterim a educação global continua: faz-se silêncio para respeitar quem fala, partilha-se a vez de falar. Nessa atividade educa-se a imaginação com beleza e se dá a transmissão de repertório literário. Além disso, é um exercício excelente de pré-alfabetização.

Enfim, a educação domiciliar é composta de atividades simples nas quais o ambiente de proximidade e aconchego predispõe para a confidência e a confiança e favorece o aprendizado. Nesse cenário está se desenrolando a infância de nossos filhos e essas doces lembranças ficarão permeadas de aromas, sabores, e lindas poesias com seus ritmos e sons.

A pedagogia de Charlotte Mason estimula um treino continuado nos bons hábitos. Ela aponta o exercício da concentração atenta e a busca de uma execução perfeita das atividades como o caminho para potencializar o aprendizado e as qualidades humanas.

Para vivenciar essa filosofia precisamos estabelecer um plano visando as circunstâncias concretas nas quais o treino do hábito será aplicado e depois precisamos estar atentos aos detalhes do que a criança faz.

Minha experiência com “delayed academics”

Quem observa nossas fotos de atividades pode ter a impressão de que cobrimos todas as frentes com todas as crianças. Mas na prática não é essa nossa realidade, nem é esse o objetivo.

Conforme fui avançando em meus estudos sobre educação descobri que muito se discute sobre “delayed academics”. Mas o que seria isso? É intencionalmente atrasar os estudos academicos sistematizados ou iniciar mais tarde do que se costuma fazer. Existem linhas pedagógicas e guias de Homeschooling que sustentam que academics devem ser “antes tarde do que cedo”.

Observa-se que a criança mais madura tem mais condições de fazer abstrações e compreende com facilidade conteúdos que podem ser custosos para uma criança novinha. Quando apresentamos uma tarefa muito difícil, o efeito que causamos em nossos filhos é de insegura e frustração. Já quando a criança fica além das expectativas, ela ganha ânimo para avançar. Nesse sentido, deixar algumas frentes para mais tarde pode ser muito proveitoso. Pois ela achará a tarefa simples e acabará evoluindo até o ponto de sua idade escolar rapidamente. Nessa linha, existem relatos de que as crianças não ficaram atrasadas por terem deixado conteúdos pendentes. Por exemplo, se aos 10 anos ela se deparar com um conteúdo próprio para uma criança de 8 anos, certamente achará tudo muito simples e avançará com confiança até o ponto em que encontrar dificuldade. Geralmente esse nível é equivalente ao da série que a criança estaria se tivesse sido mais exigida nas séries iniciais. Ou seja, uma luta exaustiva com uma criança imatura é desnecessária ou até mesmo prejudicial se fizer com que ela perca o desejo de estudar. Não convém abalar o amor ao conhecimento.

Diante desses argumentos fiquei muitas vezes me perguntado se tal abordagem era compatível com meus ideais educativos e se eu teria coragem de apostar nesse testemunho. Pois excelência educacional é um dos meus sonhos como mãe. Mas com o tempo aprendi a me desapegar dos resultados e focar em olhar meus filhos como um todo. Isso me fez algumas vezes perceber que quando o assunto é educação a lógica geralmente deve ser “devagar que tenho pressa”. Precisamos saber desacelerar quando sentimos que estamos indo por um caminho sofrível. Oferecemos a educação em que acreditamos, mas nossa meta é que floresçam conforme seus talentos e em seu ritmo.

Meu objetivo principal nas séries iniciais é a fluência da leitura e proficiência em matemática. Somado a isso, faço longas listas de livros de literatura, história, geografia, artes, ciências, experiências, passeios, viagens, esportes, aulas de piano, de balé, parquinho, tarefas domésticas, e muito tempo para aproveitar a infância, pois brincar é o trabalho da criança e é uma prioridade por aqui. Então como é possível fazer tanta atividade escolar? A resposta sincera é: Muita coisa acaba ficando de fora. E é por isso que acabei experimentando o delayed academics. Depois de não cumprir o planejamento de ciências do livro The Well trained mind por 5 anos consecutivos experimentei entregar para minha filha de 8 anos um livro didático de ciências de primeiro ano. Ela fez tudo sozinha, rápido, achou fácil, absorveu completamente. Conclusão? O mais importante no ensino fundamental é formar leitores competentes. Mesmo quando se escolhe alfabetizar mais tarde, não há prejuízo em ir com calma. A infância acaba rapidamente e sempre há tempo para aprender.

Geografia através dos contos!

Estou usando a literatura para envolver meus filhos nos estudos de geografia.

Quem acompanha nosso Homeschooling há algum tempo, pode lembrar que usávamos o livro “Maps”. Todas gostávamos muito da abordagem. Porém esse ano tenho trabalhado para que as crianças ganhem autonomia nos estudos, por isso escolhi materiais em língua portuguesa.

Em nosso ciclo do segundo semestre estou usando um pouco do método sugerido em simply Charlotte Mason. Estamos usando o livro “Volta ao mundo em 80 histórias” que para nós tem se revelado um livro vivo. Nele encontramos contos folclóricos de diversas partes do globo. Cada dia lemos uma história. E cada dia despertamos a atenção para um pedacinho do mundo. O objetivo com meus filhos de 4 e 5 anos é introduzir o conceito de que existem diferentes paisagens, animais e povos. Está sendo um trabalho muito agradável para todos nós. Juntamos nosso mapa mundi, nosso globo e mergulhamos na leitura.

Minhas filhas mais velhas, que hoje tem 8 e 10 anos estão concomitantemente lendo o livro “Mundo uma introdução para crianças” que é atrativo pelas ilustrações e que aborda conceitos mais elaborados de geografia. A tarefa que segue a leitura é fazer uma redação resumindo a leitura e um desenho para ilustrar o texto e deixar o caderno lindo.

Estou usando o livro “Trabalhando com Mapas” para verificar o aprendizado das crianças maiores. São questões em formato bem escolar. Há em cada página uma explicação brevíssima e atividades de fixação do conteúdo. Esse material elas conseguem usar sozinhas e estão se saindo muito bem.

Porque meus filhos fazem leitura em voz alta.

Uma das atividades favoritas em nosso homeschool é a leitura em voz alta. Há 10 anos todos os dias nos reunimos junto aos livros. Nosso momento de leitura está no planejamento, e é fundamental para a alfabetização, para a formação do imaginário, enfim, é o carro chefe de nosso estilo de ensino.

Valorizo a importância de ouvirem a leitura e também de lerem para que eu os ouça. Todos os alfabetizados leem em voz alta em nosso clube do livro. Isabel, que tem 4 anos, está decifrando ainda a relação entre palavras e sons, então sua participação é como ouvinte, e fica ávida por partilhar suas opiniões sobre os livros. Já Cecília, 5 anos, lê livros de poucas frases em busca da fluência. Maria e Alice exercitam a pontuação, o ritmo, a pronúncia das palavras inéditas, partilham suas reflexões e dúvidas.

Fazemos depois de cada leiteira exercícios de narração. Uma criança conta sintetizando o que ouviu e suas impressões sobre a história. Das crianças mais velhas em alguns dias eu peço um resumo escrito, enquanto que para os pequenos estímulo que Desenhem a narrativa.

Esses são momentos simples e preciosos de aprendizado suave e contínuo que deixam sua marcas no enriquecimento do vocabulário das memórias. Essas lembranças de nossa família reunida já marcou corações de nossas crianças.